No dia seguinte, ao domingo de festa que eu passei com Affonso, reapparecera o sol magnifico da vespera.
Affonso de Teive mandou apparelhar um ordinario garrano, o qual, no dizer do dono, era um luxo nas suas cavallariças, visto que Affonso raras vezes sahia para além dos muros da sua quinta. Da residencia do reitor veio de emprestimo uma egua apparelhada de albardão, e estribos de pau que pareciam alqueires. Depois de almoço cavalgamos, embrenhamo-nos por uns quinchôsos pedregosos, e sahimos á estrada entre Guimarães e Famelicão. Estava destinado um passeio de duas leguas. A egua abbacial era tão firme no piso, que eu dei de mão ás redeas, formei d'um estribo o travesseiro, e deitei-me no albardão, para admirar horisontalmente a natureza, maneira de vêr que eu recommendo aos curiosos que ainda não viram assim a natureza. Ao meu lado ia Affonso de Teive, corcovado sobre o pescoço do garrano, que não obedecia á redea nem á espora: era preciso fallar-lhe rijo, ou espertal-o á paulada. E Affonso ria-se.
—Quem te viu e quem te vê, Affonso de Teive!—exclamei eu—Quem te viu em Lisboa n'aquelle cavallo preto, que levantava ferozmente as patas, como para te cuspir á calçada, e as abaixava humildemente e a tremer, se tu lhe murmuravas uma palavra. Quem te viu ao lado d'aquella Palmyra...
Mal proferi esta palavra, Affonso cravou-me os olhos subito abrazeados do antigo fogo. Fingiu que sorria, querendo esconder a mutação de rosto. Voltou a face para onde eu não podia vêr-lh'a; e, passados alguns segundos, murmurou:
—Lá se foi a alegria do nosso passeio.
—Porque?!—acudi eu—perdôa-me, se involuntariamente feri a tua sensibilidade... Eu cuidei que entre ti e o teu passado estava um abysmo incomprehensivel aos olhos da tua saudade... Pensei que ao homem feliz eram indifferentes as recordações dos bons e dos ruins tempos da mocidade.
Affonso deteve-se a encarar-me, e disse de golpe:
—Tu ignoras a minha vida desde 1850?
—Juro-te que não sei nada da tua vida, respondi.
—E d'essa mulher, que chamaste Palmyra?