Estava o rapaz n'este auge de glorificação propria, e inveja dos visinhos, quando falleceu a mãe de Theodora. A orphan, apenas sua mãe cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma senhora, que lhe fallasse a linguagem polida á qual estava afeita. Em casa de Romão havia sómente a snr.ª Eleuteria Joaquina, creatura chan, que, a cada soluço da sobrinha, dizia quasi sempre:

—Não chores, pequena; que a morte é portêllo que todos temos de passar.

E, para não dizer sempre o mesmo, variava d'este theor:

—Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.

Eleuterio, porém, menos versado em lugares communs de pezames aldéãos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:

—Senhora prima, olhe que o chorar faz mal ás meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remedio. Agora o mais acertado é divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de Famelicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr.ª prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso á minha vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho com que ha-de comprar um grilhão de duzentos mil réis, e umas arrecadas de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos velhos.

—Quem morreu é rezar-lhe por alma—atalhou com má grammatica, mas com piedosa intenção, o tio padre Hilario.

Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.

Ahi está uma amostra de Eleuterio Romão dos Santos.

O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da oppressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se deve permittir á bondade de uma pessoa qualquer.