Logo que a mãe de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lançou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fôra creada com mestras, e de todo estranha á vida agricola.
Entretanto, Romão predispoz o filho a cuidar seriamente no bonito arranjo, que lhe sahia a talho de fouce: estylo figurado e pittoresco em que são inventivos os nossos camponezes, e em que Romão primava sempre que tinha entre mãos algum bonito arranjo, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o proximo.
Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de Theodora. Entre os galans da estôfa de Eleuterio mulher de encher olho queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beiços grossos e oleáceos. Theodora era o envez de tudo isto.
Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica tão de perto.
Theodora, aos dezeseis annos, era um modêlo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raças patricias, que o concurso de circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleição, á escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e não do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida é a que vem cantada em poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realesa do amar e padecer á mulher pallida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ella se fará amante e martyr, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o coração d'aço. Póde ser que semelhante clausula, no decurso d'este livro, acuda á retentiva do leitor.
Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, não vivos, antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feição, a mais rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrára ella, que bastante lhe fôra aquella perfeição para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em labios, não sei se me valha das figuras antigas—rosas e coraes, romans e carmim—se me avenha com esta verdade prompta e fluentissima que d'um traço copia como o pincel, e d'uma phrase exprime tudo, como em phrases de Castilho: «era um osculo perpetuo de innocencia.» Como isto sahe bem na musica da expressão; e que bello seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no osculo perpetuo da innocencia! Ó Theodora, se tu então morresses, o teu rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, ó chrysalida! A tua essencia de céo vaporou para lá no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na ante-manhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraça da mulher.
Mas, afóra a essencia pura do céo, que esvelta, que peregrina mulher cá se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podridão!
Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora. Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na lagôa fétida da verdade. Achei-me como ás margens d'uma sepultura regélida do giar d'uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas corôas humidas de orvalho, crystallizado em lagrimas; são corôas de perpetuas sagradas á formosura, que se julgou immorredoura, á sexta hora do seu breve dia. Lá vão as corôas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão e do cypreste; lá vai tudo; a memoria dos vivos lá se foge tambem d'esta sepultura: tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!
[VII]
Belleza absoluta, de têlhas abaixo, ha uma só, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de belleza em diversidade de typos, ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço, querendo exprimir ao pae a sensação recebida n'aquella hora, disse com expansiva naturalidade: