Em quanto o cavallo reparava as forças na manjadoura, Affonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Theodora. Escreveu tambem ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.

Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena tristeza.

O céo negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se com ella a uns rapidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe já uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.

Embebecido n'esta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle ácerca das paixões; abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas acções, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inattento sobrinho do apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.

Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.

N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar com a sua dôr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Affonso, desgostoso da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vêr sua mãe, receiou que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente, e disse-lhe:

—Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sahir de tua patria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para nunca mais a tornares a vêr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca sahirem da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos e os generaes já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mães tinham orado com elles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa familia antiga, meu filho, e não sei por que não ha-de continuar comnosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em meu seio, e lá aprendeste de minha bocca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos—nome dôce de mãe que te estremece—seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida. Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirás o que queres, que prompto está. Prasa a Deus que elle te não sirva de ruina ou deshonra.

O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com severidade, e clamou:

—Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e dôa-te o arrependimento, filho mau!

—Meu mano—disse a senhora—o nosso Affonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que elle tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta má vereda fui eu.