—Tu, Eulalia?! Como assim?—perguntou o desembargador interdicto.
—Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna de o ser do filho da mais illustre mãe. Eu enganei-me, e elle foi enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe chamei fraco.
Affonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulalia; e, após curtos instantes de offegante silencio, exclamou:
—Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é a sua vida!
—Graças vos dou, meu Creador e Redemptor!—clamou a senhora, muito commovida, com as mãos postas—Grande é o poder que daes ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia não mede os merecimentos pela afflicção com que as mães vos chamam!
E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia.
O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de contentamento.
[IX]
Verei se posso repetir, sem inexactidão sensivel, o que Affonso de Teive me contou, com seguimento aos successos descriptos.
«Nenhum rapaz dos meus annos—dizia elle—exerceria tão dolorosa violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o nome de Theodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido d'ella. Eu não sabia a que porta do inferno fôra bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia, contra a qual minha propria mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ella me dizia: «Estás esquecido d'aquella louca, meu filho! as minhas orações foram ouvidas no céo» ou quando meu tio, com alegres gargalhadas me applaudia, dizendo: «Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!» então a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as attenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar á piedade divina, erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquellas!...