«Minha mãe deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia não podia levar tão longe a abnegação. Recordar estes sitios, vêr além os horisontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.

«Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de todas as condições e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam em suas folias, ou me habituariam o espirito ás consoladoras occupações do estudo.

«Minha mãe accedeu promptamente á minha vontade.

«Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fôra um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços-velhos, gente ridicula; mas d'uma ridiculez que não distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous oraculos na cabeça: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se á escuta da inspiração; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sóco para escutal-os. Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, emfim, futuras esperanças da patria, que bem sabiam que uma diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá commigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do coração virgem. Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lêl-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns ares de tolice muito por ahi fóra dos limites rasoaveis. Passados tempos dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarára que eu traduzira Victor Hugo. Fui lêr depois Victor Hugo, e lastimei que os soberanos do genio estivessem sujeitos ás chufas de todo o mundo, sem excepção dos litteratos meus contemporaneos da universidade.

«Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os trossistas, iniciando-me para isso nas libações homericas da genebra e cognac do Troni. Á primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico, eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra côr, e de haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo á luz que me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha alma, toda oração, toda absorvida, se evolava em effluvios de admiração para o Altissimo.

«N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvação plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa.

—Com approvação plena!—atalhára eu Affonso de Teive.

«Por que não?—respondeu elle—As minhas noites eram quasi todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Theodora sentava-se em frente da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem já não tem que pedir senão piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os; mas, esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar, e expôr com clareza, uma ou outra vez, as idéas dos compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente n'uma lição.

«Pediu-me minha mãe que a visitasse em ferias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao Porto passar commigo a estação dos banhos de mar. Annuiu a santa senhora.

«Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fôra a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois á verdadeira luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua innocencia. «Se eu podesse amal-a!» dizia eu a minha mãe, que se tornára para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E minha mãe, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a fallar, que me fizesse lêr alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da Noite do Castello ou os Ciumes do Bardo. Comecei a lêr pelo livro; porém, á segunda pagina, dei de mão insensivelmente ao livro, e declamei de côr com tamanho enthusiasmo, e com a voz tão vibrante de lagrimas, que minha mãe rompeu em soluços, e minha prima empallideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos, e através d'estes oculos de tres graus!