«Minha mãe impediu a continuação da leitura, e Mafalda nunca mais desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa, minha prima, desde aquella explosão de ciumes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve, que nem a vaidade me magoou.
«Estavamos em Setembro, e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei á ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extinctos franciscanos. Á sombra d'um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas que mãos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilisação, que fechára os aditos da paz, quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustração, que aluira a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor mundo.
«Descendo o rio, lá me ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ella pelo braço, e a referir-lhe as minhas idéas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor, e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus religiosos avós, alguns dos quaes tinham morrido martyres da fé nas pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, á sahida de Matosinhos, com direcção á ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas garbosas do seu.
«Minha mãe assestou a luneta, e murmurou:—Valha-me Nossa Senhora dos Remedios!... Se me não engano...
«Quem é?—atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavalleiros, no entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o coração, que me repuxou á cabeça uma onda de sangue... Era Theodora, Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades d'esta vida... Não te espante o ardor d'esta linguagem. Eu fiz agora pé atraz vinte e quatro annos da minha vida, e senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego, recordando minha mulher e meus filhinhos.
[X]
Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade com que principiára.
«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.
«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e pedia vingança.
«No dia seguinte, fui para Coimbra.