«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?—dizia eu—Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da tortura?

«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações, dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre alma d'este miseravel corpo.»

«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia! Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.

«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.

«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas, reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda, com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.

«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.

«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr, a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.

«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal, aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo, d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.