«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me considerei estreado em nova existencia.

«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me reapparecesse a visão de Lessa.

«Que presentimento!

«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom ironico:—Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados.

«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e reconheceu-a tambem de instincto.

«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom arrogante:—Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua.

«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.

«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!

«Mafalda ia murmurando:—Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...—Não receies, minha boa prima—disse eu a Mafalda—que esta mulher na minha vida, já agora, apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas Caldas—Minha prima replicou:—Não te illudas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita.

«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres: tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.