«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado homem. «Ia depôr as madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente, fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.
«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente. Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava. Respondeu-me:—São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar d'aquella mulher.—E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi infantil:
—Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa misericordia não tem querido salvar-me!
«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.
«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta, vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.
«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para exprimir os soffrimentos communs.
«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.
«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!