Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:

«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?

«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?

«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.

«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!

«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que te ama, que não seja infame, amando-te?!»

N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:

—Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que interrogatorio!

«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive—disse o meu amigo.

—Mas o estylo—tornei eu sinceramente agradado da leitura—o estylo aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr» como diz o Garrett.