—E que lêr—ajuntou Affonso de Teive—continúa, se queres.
Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:
«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!
«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?
«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?»
—Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te fazia isto ha quinze annos!...
«Lê, e no fim fallaremos—disse Affonso. E eu li:
«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não respondas. Ri, e escuta.
«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.
«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia, não ousam interrogal-o como Job!»