—De mais a mais—reflecti eu—lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive escorreitamente?

«Espera que a concatenação dos factos te elucide—respondeu Affonso.

Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:

«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que te não insulte.

«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas palavras queriam dizer:—Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu, contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseraveis, que m'a cuspirem.

«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios o sangue do coração, e escarraste-lhe!

«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma. Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo, e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»

Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.

Como a gente, ás vezes, chora?...

Era o estylo!