«Mafalda appareceu-me com o semblante pallido, os olhos raiados do muito chorar, e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia-face. Meu tio ligeiramente alludiu á minha falta, na presença da filha. Sahimos da mesa de almoço, e entramos na sala, onde Mafalda recordava as suas musicas ao piano, e, algumas vezes, se acompanhava cantando. N'este dia, a adoravel penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos, dedilhou umas toadas monotonas, mas celestialmente saudosas e melancolicas. O velho acenou-me, a occultas da filha. Segui-o; sahimos, e caminhamos a pé na direcção das ruinas de Citania. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avisinhou-se das ruinas, estendeu o braço com o indicador apontado, e disse: Aquelles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Christovão de Teive. N'aquelle tempo, os homens de vida infamada, quando os ultimos invernos lhe geavam na cabeça, e os sinos, dobrando a finados, lhes attrahiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao amago, e estorcia-os nas roscas das suas mil viboras, até que Deus se amerceava d'elles, e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da côrte entrou-lhe no coração, e apodreceu-lh'o á força de lhe derrancar o sangue com as torturas da perfidia. O moço empestado veio para a provincia, e sevou o seu odio em quantas victimas pôde surprehender adormecidas no regaço do seu anjo de innocencia. Aos quarenta annos, pesou sobre elle a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabellos até á raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor d'elle fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os engeitadinhos, indigitados como filhos d'elle, ousavam chegar-lhe um pucaro de agua. Christovão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de visinhos, construida não sei para que fim ha tres seculos. Aqui se encerrou e viveu quinze annos aquelle vivo amortalhado nas ulceras da sua pelle. A sua companhia era a ama, que o amamentára, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilissima enfermidade. Morreu o desamparado, legando esta casa á mulher que lhe cerrára as palpebras. A enfermeira foi depós elle, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cincoenta annos depois, quando eu aqui vim, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguem poz pé a dentro das soleiras, que alli estão, onde existiram as portas...

«Deteve-se meu tio breves instantes, e concluiu:—Affonso, o divino Mestre doutrinava com parabolas: o homem d'estes calamitosos tempos moralisa com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o d'elle. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Em quanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha unica, um thesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Affonso, se as lagrimas d'ella te não resgatam das presas d'uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silencio, Affonso...

«Na madrugada do dia seguinte, sahi das Taipas, e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Sahia um vapor para Liverpool: embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suissa uns seis mezes. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre. Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voando em espirito á patria, não era a de minha mãe. Ella sempre, Theodora sempre!

«Ao cabo de um anno de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memoria d'ella era já fria: o pulso não se accelerava, nem do coração me subia á cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia á convalescença d'uma perigosa enfermidade. Notei sensivel mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao céo no perfume de suas orações. A coruscante luz d'aquelles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas cahiam-lhe soltas sem flôres, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que elles valham ás venturas da existencia. Porém, formosa da aureola santa da dôr sem culpa. Que paixão me avassallou n'aquelles primeiros dias! com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos labios d'ella! Recordo-me de a encontrar sosinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher purissima. Tomei-lhe com subita sofreguidão os dedos que me offereciam um pomo. Não ousei beijar-lh'os... apenas balbuciei: minha querida irmã!... Mafalda respondeu—Deves assim chamar-me, por que eu já me afiz a chamar minha mãe á tua, meu primo.

«A paz dos primeiros dias, aquelle suave repousar do espirito, entre as duas carinhosas almas, que m'o distrahiam com as indiziveis doçuras da domesticidade, durou menos de tres semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu futuro. «Que abominavel homem sou!» dizia eu no meu intimo senso, repellindo-me a mim proprio com uma restante força de virtude—Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro n'estas covardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e, em minha alma lhe exoro perdão d'este odio. Se me doe o coração saudoso d'ella, abomino-me, e recurvo sobre mim proprio as unhas d'esta feroz paixão.

«A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ella via nos meus olhares a submissão imploradora, e não entendia a covarde procedencia d'aquelle fital-a com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Lessa e da lamêda das Caldas, Mafalda rehavia do céo os jubilos de outros dias, e a purpura do rosto. A compadecida amargura, com que eu a fitava, afigurava-se á ingenua menina a expressão do amor contemplativo, como ella o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pae.

«Minha mãe, a occultas da sobrinha, perguntava-me a respeito d'ella cousas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciencia. Mostrava receios de ter desbaratado as flôres do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo d'ella. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações, e, ouvindo-me, dizia soluçante: «Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!»

«A quarenta passos de distancia de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Theodora, na carta que lêste. Quando ella tinha seis annos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou alli aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro, em quanto nós, com vergonteas floridas de acacias e arvores de fructa, teciamos uns desageitados festões que dependuravamos dos braços da cruz.

«Levou-me para lá o coração dez annos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o sôcco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Theodora. Eram duas datas: 5 de Julho de 1848, com a assignatura inicial T. P. Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: 10 de Setembro de 1849, com as mesmas iniciaes, e as seguintes palavras: Aqui veio orar a alma penada. Eu estava então em 15 de Setembro d'aquelle anno. Cinco dias antes, pois, alli tinha estado Theodora.

«Recolhi-me com febre. Á celestial graça de Mafalda, que me sahiu ao tope da escada, respondi com uma affectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassivel carrasco das organisações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe, e, por alguns dias, raras horas nos encontramos.