«Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma corôa de flôres do campo; e, na base, inscripta outra data: 20 de Setembro de 1849—Meia noite—O sol de amanhã queimará as flôres; mas o braço da cruz redemptora permanecerá aberto para os desgraçados. T. P.

«Eu queria esconder de minha mãe estas inscripções, feitas a lapis. Embebi um lenço em agua, e desfil-as. Hei-de agora confessar-te que a pertinacia de Theodora, por algumas horas, me pareceu ridicula.

—Tambem a mim me está parecendo isso, ainda agora—observei eu, animado pela confissão da pessoa, menos idonea para embicar no irrisorio romanticismo da esposa de Eleuterio Romão dos Santos.

«Mas, proseguiu Affonso de Teive—esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...

—Em amor—atalhei.

«Amor, sim, amor indomavel, amor faminto de vêl-a e de ouvil-a, de chorar com ella, de arrebatal-a ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse d'ella.

«Esporeava-me este designio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me:—Os braços da cruz redemptora estão sempre abertos para os desgraçados. As palavras, embora escriptas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Affonso, já que ella te deu a desgraça, aceita-lhe tambem o conselho.—Beijou-me a palma da mão, e sahiu da sala.

«Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Theodora. Comprehendera o mysterio, resistira ao impeto de as tirar, e, desde aquella hora, promettera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavillações da mulher ardilosa.

«Que poderia fazer a simples creatura? O infinito das forças humanas fez ella em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o céo um pleno dominio em minha razão.

«Logo, ao outro dia, Mafalda pediu-me que sahisse com ella a um passeio longe por esses pinhaes fóra até ao mosteiro de Landim.