«Sosinhos?—lhe perguntei—Por que não! sosinhos, com os nossos anjos da guarda, e o coração de tua mãe comnosco, meu querido Affonso.
«Sahimos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constricção de alma, que não atinava com os termos communs d'uma palestra entre dous primos. No alto d'um sêrro, d'onde haviamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se, e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horisontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a idéa de me vêr ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.
«Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?—redargui—Dizes-m'o tu, se eu t'o perguntar com as mãos postas—respondeu ella, pondo as mãos em supplica.
«Tartamudiei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão d'este pejo: a meiga creatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinisação, que me incutiam uma especie de escrupulo religioso.
«—Vejo que te afflijo, meu primo—interrompeu Mafalda—És ainda bom, que não podes mentir á tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me...
«Seguiu-se um longo silencio, que ella mesma interrompeu, exclamando, em pranto desfeito:—Não posso!... A Virgem do céo não ouviu os meus rogos!...
«Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que fallasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, faceis, porém, de se ligarem em meu espirito prevenido. Atalhei-a muito commovido, n'estes termos: «Deves ter directo instincto do céo, minha prima, por que a tua alma virginal é pura de toda a falsidade, e não póde ser enganada. Sabes que eu vou fugir, sem eu ter annunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, por que entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a creatura que ainda não sonhou o mal, sedenta d'uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assedio pelas tentativas da mulher unica do meu amor, da mulher perdida para mim e para si propria perdida... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal d'esta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo, despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abysmo d'onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim, e de todo homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraiso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando sahi d'estas florestas, onde nós nos entendiamos como as avesinhas do céo se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade!
«Mafalda poz-me com muita suavidade a mão na bocca, e disse:—Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... A mulher unica do teu amor... a mulher unica do teu amor é... ella!...—Os soluços embargaram-lhe a voz. Falleceram-me a mim espiritos com que tentasse consolal-a. Todas as palavras, sem vehemencia de dentro, seriam pallidas e vans. Mentir, bem que eu podesse, de que serviria?... O meu silencio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto áquelle dialogo...»
«Com satisfação a vi erguer-se, e dizer-me:—Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...»
«N'este momento, á raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia sósinha. Eu não a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontando-a com o braço tremulo disse:—A mulher unica do teu amor...