«N'este instante, esqueci o anjo, que me estava alli chorando, não sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua patria; e adorei o demonio, que passava lá em baixo, com o véo esvoaçante, por entre nuvens de pó, sacudidas das patas do arremessado cavallo.

[XII]

Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo animo de Affonso de Teive. A obsessão de Theodora não lhe dava treguas. Nas circumvisinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes sósinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ella não prestava mais attenção que ao lacaio. Affonso, em quanto a mim, resistindo á tentação, iniciava-se para consociar-se no reino celestial com os santos da sua familia, mortos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos benemeritos da auréola da santidade. Morrer com o céo a abrir-se além no horisonte, ouvindo já os hymnos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em lagrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estimulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos pés do triumphador que a despreza e adora... sublime extravagancia, se querem que lhe eu não chame santissimo martyrio!

A mãe do lastimavel moço, antes de avisada da intentada partida d'elle, resolveu impôr-lhe o seu arbitrio de mãe com severidade. Informada por Fernão de Teive, sabia que Theodora fazia miudas investidas ás redondezas de Ruivães, e que Affonso não era estranho, bem que a não houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher. A palavra «adulterio», no espirito de D. Eulalia, tinha uma significação de horror, como se o crime não tivesse exemplo na humanidade, nem remorso que o contrapesasse na balança da misericordia divina. O pavor de que um filho seu, um descendente de santos, e, pelo menos honrados varões, podesse dar ao mundo o escandalo de tamanha perversidade, accendeu-a em louvavel indignação. Inesperadamente é chamado Affonso ao quarto de sua mãe para ouvir estas pesadas e seccas palavras:

—Eu preciso de morrer em paz com o mundo, que nunca escandalisei, penso eu, e Deus me perdôe se a minha vaidade me faz esquecer as culpas. Em quanto viva, peço-te, como amiga, se não devo antes ordenar-te como mãe, que me poupes á vergonha de esconder a face, quando me pedirem contas dos sentimentos de religião e honra que te insinuei na alma. Temo que me perguntem que fiz eu da herança, que teu pae fiou de mim para te eu ir entregando, assim que tivesses razão para recebel-a... herança de virtude e probidade que tu levas em principio de desbarate. Mando-te que te retires para longe d'esta terra. Vai para Lisboa, se te agrada; ou vai viajar, se antes queres. É bom que saibas os cabedaes que tens. A tua casa rende seis mil cruzados: conta com elles, e com o valor das propriedades, se, para salvação de tua honra, precisares que ellas se vendam. Não voltes para mim sem me poderes jurar, pelas cinzas de teu pae, que a lembrança peccaminosa de Theodora morreu em teu coração. Deus Nosso Senhor te abençôe, filho. A minha ultima oração será rogar ao Creador que restitua á casa onde as gerações legaram umas ás outras a tradição de grandes serviços a Deus ligados a grandes serviços á patria: religião, honra, e trabalho, o nobre trabalho da espada de uns, e da sciencia d'outros. Tu sahes da trilha de teus avós, consumindo tua mocidade em dissabores de que ninguem, senão eu, póde compadecer-se. Vai. Se poderes, sê forte, sê homem. Se a ultima fraqueza te levar ao ultimo crime, guarda ao menos uma parte da alma para a contrição no remate da vida.

Nunca, até áquella hora, Affonso vira e ouvira assim sua mãe. Mesmo na admoestação, denotára sempre o pesar com que o fazia; e para o compensar da magoa, acudia logo com as caricias. Por causa de Theodora, as reprehensões eram sempre disfarçadas na grave mas dôce persuasão do conselho. Querer afastal-o de si, nem por sombra de palavra o indicára nunca. E agora, no semblante, na rigidez da phrase, na postura do rosto, e arrugado da testa, Affonso achou tanta mudança para espantar-se como affligir-se.

Ia elle responder, e ella, para logo, d'um gesto de silencio, o fez calar, dizendo:

—Não te quero ouvir: Deus que te ouça; mas vai. Cá fico eu velando os dias d'esta menina, que teve a desventura de te amar. Consolar-nos-hemos eu e ella, orando por ti. Ámanhã partirás. Tua mãe ordena.

Affonso, ao despedir-se de sua mãe, teve a intuição de que a não veria mais. A maior agonia da sua vida, até áquelle momento, foi essa. Ajoelhou-se a beijar-lhe as mãos, que molhou de lagrimas. E ella abençoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratorio. Ao lado d'elles, estava Mafalda, livida, hirta, tranzida d'um frio, que a fazia tiritar. Não chorava. Podia comparar-se a sua atribulação á da mãe que tambem tinha enxutos os olhos. Porém, quando Affonso lhe estendeu a mão, e disse: «adeus!» ella, arrancou do intimo um cortante grito, e lançou-se nos braços d'elle, debulhada em pranto.

[XIII]