Foi Affonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratavel, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos-Ayres, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relações adquiridas em casa do magistrado, e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo, e o trabalho mesmo da composição, sem o intento de fazer-se conhecido no mundo litterario. Em quanto o espirito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver n'ella os dias e as noites, curtos intervallos de magoa o assoberbaram; assim, porém, que o bulicio cessou, e os tapetes das elegantes salas não davam rumor de um passo, e Affonso, sentado á sua banca de estudo, ouvia apenas as cadencias do pendulo do relogio, condensaram-se-lhe em volta do espirito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espirito a um grau penoso de excitação. Todos os seus manuscriptos fragmentarios ou desatados, que eu vi treze annos volvidos, accusavam uma obstinada paixão da qual o poeta hauria argumentos contra a Providencia que o desamparára, na batalha comsigo mesmo.
Aos vinte e dous annos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim, é virtude imaginaria. Para outras civilisações, lá estava o deserto do anachoreta, e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angustias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no céo, a cobrarem o seu patrimonio de alegrias infindas, ganhado a troco d'uma hora de orgulho satisfeito—que mais não é o contentamento d'esta breve fugida que fazemos do ventre á sepultura. N'estes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si propria, agora que o céo se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrellado involtorio d'este globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em summa, que o viver sem gozar é um triste, senão estupido, preludio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Affonso de Teive que não rompe mundo a dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dous annos, bizarria de fidalgo, e physionomia dotada de graças attractivas de todos os olhos?
Era necessario que a sociedade culta delegasse um dos seus ornamentos a intimar Affonso de Teive para comparecer, réo de lesa-illustração, á barra do seculo XIX. O enviado, escolhido a ponto, foi, como por acaso, encontrar Affonso na matta da Penha-Verde em Cintra, onde o tinham chamado saudades das suas arvores de Ruivães.
D. José de Noronha, sugeito de trinta annos, filho segundo d'uma casa titular de Lisboa, cursára alguns estudos da Universidade, contemporaneo de Affonso. Pertencia á tribu dos trossistas, e gozava as honras de caudilho nos disturbios, e maiores honras ainda de primeiro estomago em digestão de vinho. Contava-se que D. José de Noronha bebia por um pipo de almude, quando não tinha á mão o alguidar, taça ordinaria das suas libações. Este facto, presenciado com assombro e inveja, avantajou-o em consideração aos socios da taberna, e conferiu-lhe voto deliberativo em todas as barganterias nocturnas. Affonso de Teive, algum tempo associado aos tonantes, declinou da sua estima o illustre companheiro, indistincto dos outros em sua opinião. Separados pela mudança de costumes, raras vezes se viam, e mais raras se tratavam. D. José cognominava de renegado o fugitivo socio, e divulgava que o miseravel nunca bebera uma garrafa de genebra, sem se embriagar. Equivalia esta denuncia a uma grave deshonra.
Abandonada a carreira dos estudos, por força de successivas reprovações, D. José foi para a familia, que o recebeu sem espanto do mau exito, nem mesmo pesar. O fidalgo libertino tinha bom patrimonio materno, e um pae, cujo desregramento de vida absolvia os desatinos do filho. A sociedade recebeu-o prazenteiramente, deu-lhe a primeira linha na cohorte dos elegantes, e victoriou-o com alguns tropheus de conquistas, comminadas no codigo penal, e gloriosas nos salões. D. José absteve-se da ebriedade em publico, é isso verdade; mas indemnisou-se em vicios, que seriam muito mais nocivos á humanidade, se as maiorias compartissem dos ultrages afflictivos, que vão na intimidade obscura, e mesmo na publica exposição das familias. Não vem isto para dizer que todas as familias ultrajadas se afflijam. Em Lisboa, principalmente, as excepções são tantas, que suaria o topete quem quizesse achar a regra. Lá, haveis de encontrar muito d'uma cousa chamada «philosophia», sciencia, que foi necessario inventar-se, á medida que umas certas virtudes de portas a dentro deram em saltar pelas janellas, e voar por ahi fóra, não sei para onde, naturalmente para a India, onde as viuvas se queimam em demonstração de fidelidade aos maridos defunctos. Ha-de ser isso.
Affonso de Teive reconheceu D. José, que sahiu d'um rancho de senhoras a comprimental-o. Eram cousas diversissimas vêl-o em Coimbra, ou alli em Cintra ao lado das senhoras da primeira distincção, como lá se diz, e quasi sempre em rigorosa verdade, omittindo-se a qualidade distinctiva. O menos preço em que o fidalgo do Minho tivera o de Lisboa, desvaneceu-se logo. A compostura, o trajo, a seriedade, os ademanes, aquillo tudo, digamol-o assim, aromatizado do palacio e côrte, demudou a má opinião de Affonso em estima attenciosa e quasi amigavel.
Em breves termos, se disseram mutuamente as suas residencias, convencionando-se logo em se encontrarem e conviverem a miudo. D. José de Noronha, como da terra, foi o primeiro a visitar Affonso. Frequentaram-se assiduamente, e chegaram a termos de se hospedarem á vez, e ás temporadas de tres dias, nas casas um do outro.
Claro é: Affonso contou suas penas, com sincera expansão, ao amigo. Era o primeiro estranho a ouvir-lh'as. Mostrou-lhe as cartas de Theodora, encarecendo-lhe a belleza, superior mesmo ao genio revelado na escripta. Nada menos que genio o meu pobre Affonso descobrira nas cartas da esposa de Eleuterio Romão. D. José de Noronha, por sua parte, passava do espanto ao assombro a cada periodo interrogativo da famosa missiva, que me fez rir e chorar—caso unico na minha vida extraordinaria.
—E tu podeste, Affonso—disse D. José—podeste resistir a esta mulher?!... És aleijado, ou tens peito de rocha, ou cheiras a santo! Abre-me bem os refolhos do teu espirito. Esclarece-me este phenomeno. É certo que nunca respondeste a esta mulher, nem a procuraste?
—É certo—respondeu Affonso, quasi envergonhado da confissão.