—Ó pobre Joseph! ó mallograda Hiempsal! Conheces bem a Hiempsal... a esposa do ministro de Pharaó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos?... Ai de ti, Affonso de Teive, que, a final, sahirás do mundo sem capa, e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850, e que tens de alijar a carga de dous seculos, se não quizeres ir a pique, varar no ridiculo inexoravel com os homens da tua fortuna e da tua figura. Origines ficticios, que nem sequer resalvam com o estudo dos attributos divinos a sua ignorancia dos attributos humanos... Pobre Theodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabellos, e não arrancar-lh'os. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleuterio... que mais?
—Eleuterio Romão dos Santos—disse Affonso, sorrindo no tom imitante do dizer galhofeiro do amigo.
—Eleuterio Romão!... Eu não sei—proseguiu D. José—se amaria a esposa de um homem chamado Eleuterio!... Mas, nas condições de cara e estylo em que está Theodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Affonso, obrigando-a a promover o chrysma do conjuge... Fallemos serios, serios como rapazes, que tem o estricto dever de não serem palermas, do contrario seremos victimas de todos os Eleuterios. É necessario que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares, e tens ainda a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Affonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no «Trovador» umas lamurias lamartinianas, que davam idéa de seres um desgraçado, que vivias das brizas do claro Mondego, e tu, meu patarata, em quanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de cognac por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal!... Patusco!... Fallemos agora serios. Escreve á Theodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás soffrendo por ella, que deixaste por ella tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo por causa d'ella... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoice. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Theodora, e interpor n'esse espaço trinta mulheres, com tanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe désses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo, e devias desejar a outra porque era um demonio. Que fizeste tu quando ella casou? Choraste, e com tamanho aggravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte annos, gentil, e rico! Pondera bem n'esta vilipendiosa calamidade, meu caro Affonso. Salta sobre dez annos de tua existencia para diante, e diz-me que nojo te ha-de fazer este Affonso, quando o Affonso de 1860 achar que tem o mesmo nome, e quasi a mesma figura!...
E continuou por largo espaço n'este sentido.
Escutava o filho de Eulalia o discurso de D. José, lardeado de facecias, e, por vezes, attendivel por umas razões que se lhe cravavam fundas no espirito. As réplicas sahiam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já elle se temia de responder cousa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para o igualar na licença da idéa, e por vezes, no desbragado da phrase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos-Ayres aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão sómente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o despenarem-se, chorando. Mudou residencia para o centro de Lisboa, entre os salões e os theatros, entre o reboliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaram-no; mas, á beira d'elle, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos aporfiados em tosquiarem um dromedario provinciano, que se escondêra em Buenos-Ayres a delir em prantos uma paixão callosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Affonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos dictames, que expor-ser á irrisão de pessoas d'aquelle quilate. É verdade que ás vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe, e Mafalda. Affonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se accusava de pueril visionario, não emancipado ainda das crendices do poeta inexperto da prosa necessaria á vida.
Escrever, porém, a Theodora, não vingaram as suggestões de D. José. Por ventura, outras mulheres superiormente bellas, e agradecidas ás suas contemplações, o traziam preoccupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença.
Mas, um dia, Affonso, n'uma roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Theodora:
«Compadeceu-se o Senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, d'onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Affonso. Meus labios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O cadaver ergueu-se na immobilidade da estatua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára ahi onde estás, que as tuas alegrias devem de ser muito falsas, se a voz d'uma pobre mulher póde perturbal-as. Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infancia, abraçava-te. Se me dissesses que a tua innocencia se baqueára á voragem das paixões, repellia-te. Eu amo a creança de ha cinco annos, e detesto o homem de hoje.
«Asserena-te, pois. Esta carta que mal póde fazer-te, Affonso? Não me respondas; mas lê. Á mulher perdida relanceou o Christo um olhar de commiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Christo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: «Senhor! Senhor! é uma desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infamias uma só não tenho que a justiça da terra me condemne. Estou acorrentada a um dever immoral, tenho querido espedaçal-o, mas estou pura. Dever immoral... por que não, Senhor! Vós vistes que eu era innocente; minha mãe e meu pae estavam comvosco.
«Abafaram-me n'uma jaula; eu queria amar-vos fóra dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma immoralidade, levantando sobre as faculdades d'esta alma esmagadas o patibulo do meu coração. Foi immoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor. E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxêa a gonilha no pescoço, a vós ajoelho, Deus dos reprobos das alegrias d'este mundo, exorando-vos que me deis um amigo.