«É o que eu diria ao Deus da adultera e da Magdalena, Affonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma, fulminada pela inspirativa misericordia do Justo dos justos, sahiria um gemido piedoso por a mulher desamparada. Sê meu amigo!»

Recusava-se Affonso a deixar vêr a carta: era, porém, uma descortezia sonegal-a, entre moços, que francamente haviam alli relatado á competencia, as façanhas amorosas dos ultimos quinze dias.

—Homem indigno da nossa estima!—exclamava D. José de Noronha—Grande cynico! podes tu negar aos teus amigos dous minutos do innocente prazer de ouvirem o estylo d'uma Sevigné provinciana, que, para ser mulher de época, só lhe falta affeiçoar-se a um homem que lhe rasgue os horisontes d'um destino esplendido!? Venha a carta!

—A carta! a carta!—exclamaram todos, empunhando os copos.

—Um brinde á formosa das montanhas!—bradou D. José.

—Depois de lida a epistola!—emendou um commensal.

—Antes e depois!—redarguiu o proponente do brinde, e ajuntou:—Á saude de Theodora, bella e espirituosa, amada e amantissima, pura quanto póde sêl-o a mulher que nos braços d'um marido reserva para o homem amado a virgindade do coração!

—Á saude de Theodora—conclamaram todos, exceptuando Affonso, cujo aspecto arguia tristeza.

Seguiu-se um brinde enthusiastico ao ditoso Affonso, que sobrepunha a formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos arabes lhe tinham offerecido a alma n'um sorriso.

Affonso agradeceu, com gesto de mal dissimulado dissabor.