Reiteraram os convivas o pedido da carta. Affonso hesitava ainda. O mais ebrio d'aquella mocidade patricia, representante dos mais illustres appellidos da época heroica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a mesa, e abril-a com estrondosos applausos dos outros. Affonso de Teive estendeu impetuosamente o braço, e tirou a carta da mão do hospede.

—Isso é um insulto a todos!—exclamou D. José de Noronha.

—Não é insulto—replicou o de Ruivães—é preito a todas as mulheres, e com especialidade ás desgraçadas.

Disse, e incendiou o papel na chamma do castiçal em que acendiam os charutos.

O tom amargo d'aquellas palavras commoveu os convivas, que, por bom acerto, se encontraram todos de indole sentimental, quando as vaporações alcoolicas lhes ennublavam a porção intellectual, que era n'elles diminuta, como de direito heraldico. D. José, compondo o rosto d'uns vislumbres de rectidão e bom discurso, perorou ácerca da probidade de Affonso, e, em nome dos communs amigos, agradeceu a lição, e levantou novo brinde ao hospedeiro moço que tão digno era da estima dos homens como da confiança das mulheres.


Este capitulo não dispensa uma nota illustrativa, respondendo temporanmente á critica illustrada que me perguntar como pude eu pôr em traslado uma carta queimada á luz do castiçal, minutos depois que Affonso a lêra? É por que o rascunho d'esta carta, escripta com entrelinhas, emendas, e borrões, escripta por Theodora, estava ainda em poder de Affonso de Teive em Dezembro do anno proximo passado. Opportunamente se dirá como Affonso de Teive se apossou do rascunho. Então a critica verá que poucas cousas succedem na vida tão naturalmente.

Relevem-me estas demasias de escrupulo: que eu difficilmente consentirei que a má fé me apanhe em flagrante inverosimilhança.

Assim é que eu quizera que se escrevesse a historia patria, com este timbre e rigor de verdade. Por mingoa de desvelos analogos na averiguação dos factos historicos é que nós ainda não sabemos bem quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarchas: falha que desluz algum tanto o panegyrico das virtudes dos reis portuguezes. Aprendam os historiadores.

[XIV]