Affonso ficou pensativo. As revelações lisongeavam-no. O odioso do caracter de Theodora desvaneceu-lh'o a impressão já magestosa, já condolente do viver da morgada. Uma sublime desgraçada!—dizia elle comsigo—Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das creaturas!
E, trabalhado por esta idéa que pertinazmente lhe martellou no animo, Affonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã d'aquelle dia. Queria relêl-a, mettêl-a a beijos na retentiva do coração!
Á noite foi ao theatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de Noronha. Versou a pratica sobre o aceitar benignamente os acommettimentos de Theodora. D. José mostrava-se já enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, por tanto lhe pedia, que de todo em todo esquecesse a mulher, e se portasse como rapaz de certa ordem; ou obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem fosse.
N'esta mesma noite, o moço, vencido a final pela irresistivel necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recordações da infancia de ambos: devia de ser alta e amoravel poesia, como o coração a trasborda, se d'um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no pelago da luz, que mais não ha-de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa!
Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena florescencia, com os seus desejos balbuciados em phrases todas alma e enleio, dulcissima linguagem, que era ainda a das chimeras pueris, mal desvanecidas no trajecto da infancia á adolescencia. Poesia ainda, flôr sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar em lagrimas, d'onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe ha-de extirpar a raiz.
Seguia-se o recordar as dôres atrozes do abandono d'ella, quando o moço em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirára aos braços da morte, aceitando o inferno, se o lembrar-se o condemnado da mulher que amou na terra, não era lá o maximo tormento.
A final, após os queixumes, subia-lhe do coração aos olhos n'uma lagrima o perdão. Perdão e amor: que não ha ahi, em alma humana, perdoar ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer é desprezo, não é perdão.
Escripta e fechada a carta, sobreesteve Affonso no remettêl-a. Acaso iria ella, sem desvio, ás mãos de Theodora? As injustas suspeitas não poderiam ter Eleuterio de sobre-aviso? E, de mais, reatadas as ligações de estima, iria Affonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e sustentaria alli o cortejo á mulher casada?
Estes quesitos fallavam á razão; porém, a pobresinha da razão, estava já escondida na consciencia, e a consciencia ensurdecera com a guisalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandára estudar os costumes do seu tempo.
Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ella chegou ao correio: estava alli o marido de Theodora vendendo cereaes. Foi á lista postal vêr se seu pae tinha carta de parentes do Brazil; e, como não se entendia bem com os nomes maiores de tres syllabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a Theodora Palmyra Villar de Sousa, exclamou Eleuterio: