—É a minha mulher! Ha-de ser carta do livreiro.
Convem saber que a morgada se entendia directamente com os seus livreiros fornecedores.
Eleuterio foi tirar a carta, e deu-lhe nos olhos, afóra o lustre do sobre-escripto, o lacre azul fechado com armas, e, mais que tudo, a marca de Lisboa.
Não me atrevo a compôr o soliloquio de Eleuterio Romão. Sei que elle andava com a carta ás voltas, entre mãos, e ás vezes esfregava entre dous dedos o papel, como se pelo tacto podesse inferir do contheudo. Estava com elle o regedor da sua freguezia, o mesmo que lêra a lista, e lhe lia na alma agora.
—Que estás a malucar, Eleuterio?—disse elle—A modo que essa carta te deu no gôto!...
—A fallar a verdade—respondeu o marido de Theodora—esta letra não na conheço, nem estas armas reaes!... Minha mulher não conhece ninguem em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.
—É como diz: Lisboa, sem tirar nem pôr. E então?... achas que ella...
—Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?
—Eu cá, se fosse commigo, já a carta estava aberta. Mulher minha a ter cartas, sem eu saber de quem!... Deus me defenda!
Palavras mal eram ditas, que Eleuterio quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo: