—Lê lá... ella é tamanha! parece uma sentença!... Vamos vêr isso, que eu já me não sinto escorreito.

O regedor tomou o manuscripto de oito paginas entre as mãos, poz-se em attitude abrindo as pernas em circumflexo, tossiu, tomou folego, deu crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: «D'onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o céo me bafejava a infancia, e as delicias todas da existencia me eram prenunciadas nos sonhos?...»

O regedor revirou os olhos pasmados a Eleuterio, e disse:

—Tu percebeste isto, compadre?

—Assim me Deus salve, que não percebi palavra,—respondeu Eleuterio Romão esbugalhando os olhos sobre a escripta cabalistica.

—Portuguez acho que é!—tornou o regedor, consultando a opinião do compadre.

—Isso é, lá portuguez é... Ora torna a dizer.

O leitor repetiu, e disse:

—Falla aqui em alma, e sonhos, e delicias. Sabes que mais? Isto, seja lá o que fôr, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdôe, ha maroteira d'aquella casta!... Deixa-me vêr mais um bocado a vêr se pesco alguma cousa. E, continuando, leu:

«Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lucida da filha da minha alma! volvei, volvei, orvalhai a flôr requeimada, dai uma lufada de primavera ao meu coração regelado pelos frios d'esta infinda noite... Oh minhas donosissimas chimeras!...»