—E agora entendeste?—voltou o regedor—eu estou como a Felicia d'Abrantes, peor que d'antes. Isto se não é latim, é o diabo por elle!

—Queres tu que se pergunte a alguem!?—acudiu Eleuterio—A gente ha-de achar quem lhe explique isto cá em Braga... Falla-se ahi a um padre que eu conheço, ao capellão das Ursulinas.

—Dizes bem... Tu não has-de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu vêr que ahi vem o homem que nos explica o negocio?—perguntou o magistrado administrativo—É meu compadre Fernão de Fonte Boa.

Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte-Boa, por ser lá o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço d'elle, com doentio aspecto.

O regedor descobriu de longe a cabeça, e sahiu ao encontro de Fernão, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.

—Que é feito de ti, compadre, que te não vejo ha cem annos?—disse o velho—Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em fabricar deputados, e comer os salpicões dos recrutas passados pela malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capitão-mór, que geito para comer os saudosos lombos tens tu. Então que é feito, rapaz? quem é aquell'outro? Se me não engano, é o Eleuterio do Romão.

—Para servir a v. exc.ª—disse Eleuterio com tres mesuras de cabeça exageradas—Sou eu para servir a v. exc.ª

Fernão inclinou um olhar ironico sobre o hombro da filha, e disse com um mal represo frouxo de riso:

—Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.

Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito, e baixou os olhos com gesto de notavel commoção.