E o regedor tirando a carta da algibeira, disse:
—Eu queria consultar o meu excellentissimo compadre a troco d'uma carta que nem eu nem meu compadre Eleuterio entendemos. A gente, como o outro que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assigna o seu nome. O caso é este: aqui o compadre achou no correio esta carta p'rá mulher. Teve lá seus arrepios, e abriu-a. Começamos a lêr, mas nem p'ra traz nem p'ra diante. As palavras parecem portuguezas, acho eu; mas nós não sabemos o que ellas rezam. Se o senhor compadre fizesse favor de lêr isto...
Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando sentiu extraordinario peso no braço esquerdo, olhou em sobresalto, e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-a, e ella, expedindo uns agudos soluços, quiz em vão pendurar-se do pescoço do pae. Tomou-a o velho nos braços com tremente anciedade, e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.
O regedor e Eleuterio seguiram Fernão, afflictos do successo. Na mão do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do accidente, olhou machinalmente para o papel, e teve um repellão intuitivo, sem ainda o comprehender.
Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de arremesso o papel ao chão, e disse:
—Deixem-me... não sei o que é... Vão-se embora...
Os homens iam sahir, quando elle os chamou com phrenesi, pediu a carta, e desfêl-a em pedacinhos, exclamando:
—Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.
Eleuterio estava assombrado, e o compadre abria e fechava a bocca em signal do seu espanto e compaixão. Em boa fé, o regedor acreditou atacado de demencia o velho, ao vêr a filha em trances de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual sua razão do caso, bem que Eleuterio ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.
Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pae, e murmurou mui carinhosa: