—Perdôe-me, por quem é! Perdôe esta fraqueza da sua infeliz filha!

—Pobre anjo—balbuciou o velho—Que has-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquelle desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mãos. Precisavas d'isto, para em fim te convenceres.

Mafalda pediu ao pae que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos afflictos, chorou, e viu as lagrimas do velho ajoelhado á beira de ella. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:

—Estou melhor, meu pae. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Tambem orei pelo primo Affonso.

—Eu não orei—disse o pae—mas rasguei o documento de sua infamia.

[XV]

Affonso de Teive contava os dias, e, no ultimo dia, a hora e instantes em que devia receber carta de Theodora. Esperou uma semana em alvoroço, e já, ao decimo dia a mallograda esperança o atormentava. A incerteza da recepção alliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que elle se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher. O mais graduado oraculo do seu conselho, D. José de Noronha, racionalmente, opinava que a mulher, authora de taes cartas, por força devia responder; e do silencio concluia que se transviára a resposta enviada. Chegou a confirmação d'esta hypothese, na seguinte pergunta de Theodora:

«Instantemente rogo que no primeiro correio, me digas se me escreveste. Sobejam-me razões para conjectural-o. Estou em ancias. Esta incerteza martyrisa-me mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua resposta—pedida com lagrimas—para Barcellos. Calculo o dia em que ella deve alli estar. Irei pessoalmente recebel-a. T. P.»

Lida a pergunta, Affonso abancou para responder. Posta a primeira palavra, ergueu-se de salto. Chamou o criado da cavalhariça. Mandou pençar os cavallos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas antes da sahida do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada fraquearam os cavallos. Affonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o preço das novas cavalgaduras, e chegou a Barcellos duas horas primeiro que o correio.

Quando apeou na estalagem de Barcellinhos, encostou a cabeça esvaida á borda d'um leito, e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou elle que, dormindo uma hora, acordára tranzido do horror de um sonho. Vira Theodora em trajos de bacchante, revolteando umas walsas lubricas, e atirando-se ebria, e torpe de impudicicia, aos braços d'um homem. Era um sonho; mas, ao despertar, Affonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes de arrependimento. A prostração era invencivel: adormeceu outra vez, e sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou espavorido; ergueu-se arrancando a mãos freneticas aquella imagem da fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relogio: viu que era ainda tempo de fugir... Diz elle que fugiria... ai! eu não creio que elle fugisse, não! Chamára o criado para arreiar os cavallos... eis que, ao cimo da rua sôa tropel de ferraduras, e faz-se rapida paragem á porta da estalagem. Affonso descora, vai de encontro ás vidraças, e vê apear a morgada.