O quarto d'elle era contiguo á sala commum. Já Affonso lhe ouvia os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavallos e fosse receber as suas ordens. Foi elle manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao visinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sofrego o ar que lhe sahia a sacões do peito. Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado á mesa central da sala, e a face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde escuro. Verde era o véo do chapéo, que, momentos depois, ella tirou com um rapido movimento, e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos ás fontes, afastando os anneis dos cabellos, que se encaracolavam rosto abaixo até ás espaduas. Demorou-se momentos n'aquella postura. Ergueu-se impaciente, e passeou d'um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com força pelo trancelim d'ouro do relogio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, d'onde Affonso a observava. «Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixára—me disse elle—Da menina admiravel o que ella ainda tinha era o ar angelico; mas a belleza da mulher deslumbrava as reminiscencias da creança.»

Venceu Affonso os impetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o que: esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retrahido ao coração.

Entrou o lacaio que ella mandou logo ao correio com um bilhete alli escripto a lapis. Desde este momento, Affonso já sabia o que esperava: queria vêl-a affligida com a falta da carta. No intervallo, Theodora chamou o criado da hospedaria, e pediu café. O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Affonso: este viu-o, e afastou-se. Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se s. exc.ª queria almoçar. Affonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Theodora:

—Quem é que está n'aquelle quarto?

—Não sei, fidalga—respondeu o moço.

Affonso repoz-se á fechadura.

Chegou o lacaio.

—Trazes?—exclamou ella como assustada.

—Não ha, minha senhora.

—Não?!—bradou ella batendo o pé—É impossivel! É impossivel! Deve lá estar uma carta!...