—Saberá v. exc.ª que eu li a lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que dá as cartas—disse o lacaio, e sahiu.

—Inferno!—clamou ella estorcegando os dedos que estalavam nas articulações.—Maldita eu seja, que tão aviltada me tornei!

Sentou-se a arfar, e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes.

Pôz depois as mãos enclavinhadas junto dos labios, encostou a barba ao pollex da mão esquerda, abaixou a cabeça, e meditou.

Entrava o criado com a bandeja. Theodora, estremecendo como atemorisada, relanceou os olhos sobre o criado, e disse-lhe com desabrimento:

—Deixe ficar. Cá me sirvo. O lacaio que almoce, e apparelhe.

N'este momento Affonso abriu a porta, e disse com a voz convulsa:

—Um passageiro pede uma chavena do café de v. exc.ª

O leitor já sabe por todos os romances, por todos os dramas, e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Theodora fez. Um ah! ou dous, é o nariz de cêra para todas as surprezas, fabricado desde Homero, ou mais de longe. Adão, quando viu Eva, devia dizer: ah! A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moises, que mais ou menos nervosa, exclamou ah! A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio de espantos.

Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Affonso me disse que Theodora não expediu do seio interjeição nenhuma, nem ah!, sequer.