—Pois que?!—perguntei eu com a respiração abafada—Que disse ella?!

—Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio, postas em oração; depois, cahiu em joelhos, ia cahir, quando eu, ajoelhado tambem, a recebi, a desfallecer.

—Não disse nada, por tanto!... E desfalleceu sinceramente?

—Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...—respondeu Affonso—Asseveras-me que te estão contando factos ignorados?

—Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcellinhos?!—repliquei—Eu ignoro d'essa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmyra em Lisboa comtigo... mas, se tu crês que um homem, acostumado a fazer romances, é uma especie de naturalista, que só com um osso recompõe um animal desconhecido, admitte-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Theodora com os poucos, mas caracteristicos traços que me deste do seu caracter. Authorisado, pois, pela tua pergunta, afouto-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de theatral, por que nem sequer foi precedido da inevitavel interjeição. Assim que me disseste, Affonso, que ella não desentranhou do intimo seio um estridulo ah! entendi que Theodora era mais artificial que o proprio artificio, mais theatral que o mesmo theatro.

—A narrativa—redarguiu Affonso de Teive—vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-hei que me sinto já constrangido n'estas memorias. Acho-me um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Lethes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada ha ahi mais triste que recordar na miseria os tempos felizes, é, pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas miserias. Todavia, como já agora, inexoravel romancista, me não dispensas o remate d'este longo prologo do capitulo final do meu livro—livro que eu chamaria Amor de Salvação—concluirei a historia, e irei depois purificar meus labios no rosto de meus filhos.

—Theodora—continuou Affonso—quando quiz abrir os olhos, arrancou-se dos meus braços, exclamando:—Repelle-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheço a minha miseria, agora que te vejo, ó Affonso, ó anjo da minha infancia, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da creatura perfeita para quem tu nasceste!...

—Ha ahi muito estylo—interrompi—A mulher compunha! Vê-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña para as mulheres de letras. E depois?

—Eu venci o espaço que ella deixára recuando e abracei-a. N'este movimento, senti nas faces o contacto dos caracoes desfeitos. Osculei-a na fronte...

—Gosto—atalhei—do comedimento honesto da palavra... Osculei-a... sim, senhor... Assim é que um pae de oito filhos conta a historia dos seus beijos. E ella tambem te osculou?