—Sofregamente, doudamente, segurando-me a face pelos cabellos.

—Isso tambem é de rigor theatral. A mulher conhecia a scena!—perdôa as interrupções. De proposito as faço para te dar azo a inspirares fôlego novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...

—Rebentou-me a bolhões do peito a eloquencia da paixão. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um thesouro intacto, d'onde nem sequer tirára uma palavra para mentir a outra mulher. Ella entrecortava-me, sorvendo-me as expressões nos labios, ou abafando-m'as no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvêra uma hora, segundo a vida do tempo...

—E depois—acudi eu—começaram a tratar de assumptos circumspectos com discreta serenidade.

—Contou-me ella que o marido, com ar de tyranno tolo...

—A phrase é d'ella, tyranno tolo?—perguntei.

—É. Desgostar-me-hia o tom zombeteiro com que me ella fallava do pobre homem, se eu não estivesse...

—Corrompido—conclui—Querias dizer isto?

—Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ella que o marido lhe fallava em correspondencias de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos pavilhões dos ouvidos, costume d'elle, quando os ciumes lhe faziam prurido nas orelhas.

—Disse-t'o assim ella?—interrompi com a mais ingenua irritação.