No termo de um anno, Affonso de Teive tinha escripto, a largos prasos, pouquissimas cartas a sua mãe. N'outro relanço viria mais bem cabido o fallar-se da virtuosa senhora e da angelical Mafalda. A promiscuidade faz-me susto de vituperal-as. Mas é preciso dizer que D. Eulalia, em cumprimento da sua promessa, remettia ao filho as quantias avultosas que elle exigia, e o producto d'uma quinta de sua legitima paterna, logo que Affonso lh'o determinou. Fernão de Teive comprára a quinta clandestinamente por intervenção do seu mordomo. O ouro entrava em torrentes n'aquella voragem, d'onde retornava em carruagens, em baixellas, em festins, em sêdas e brilhantes, em apostas soberbas no jogo, em extravagancias de soada fama, em emprestimos aos commensaes. No decurso dos doze mezes, apenas Fernão de Teive mandou um triste memento homo ao reboliço d'aquelles jubilos. Eram estas palavras unicamente: «Lembra-te, Affonso, de teu tio-avô Christovão de Teive.» Affonso sorriu e perguntou a Palmyra se lhe via signaes de lepra. A jovial creatura, informada da intencional allusão, cascalhou umas risadas de que muito se compraziam os ouvidos do amante, as quaes, no dizer de D. José de Noronha, tinham uma alegria contagiosa, que faziam bem aos infelizes. Affonso não respondeu ao velho de Fonte-Boa; mas, n'uma hora de solidão em seu particular gabinete, sommou as parcellas hauridas de sua casa, e espantou-se; calculou a quantia necessaria para vinte annos de vida, e descobriu que no fim de dez annos devia estar morto, para não pedir esmola aos parentes. Levantou-se pensativo d'esta operação arithmetica; sahiu do gabinete; e encontrou Palmyra a lembrar-lhe a conveniencia de arrematar um camarote de S. Carlos, que estava a lanços. Affonso respondeu tristemente: «Pois sim.» Palmyra não viu linha alguma extraordinaria no rosto do amante: beijou-lhe os olhos, e disse: «És um anjo!»

Desde aquelle fatal dia dos calculos sobre as despezas de vinte annos, Affonso scismava a miudo nos dez que restrictamente lhe offereciam os seus presumptivos cabedaes, contando já com o fallecimento da mãe. «Infame clausula dos meus calculos!» dizia elle com os olhos a reverem lagrimas de remordente remorso, treze annos depois.

Palmyra, a final, deu tento da melancolia de Affonso; e ainda antes de consultar-lhe a causa, perguntou se a não amava já. O interrogatorio affligiu o moço. Reconheceu que faltavam n'aquella mulher as sérias qualidades de espirito para lhe escutar o motivo de suas abstracções, em meio dos favores da fortuna.

Manifestou Palmyra o seu insoffrido orgulho. Similou um recolhimento de amargura cavillosa. Pranteou-se, perguntando ao céo, em attitude tragica, se a expiação começava tão cedo. Affonso acariciou-a, já condoido d'ella, e revelou, com desdem de seus proprios temores, a causa mesquinha d'elles. Palmyra observou-lhe que a fortuna d'ella, a sua parte, excedia o valor de vinte e cinco contos, e propoz-lhe requerer-se divorcio, desde logo. O bizarro moço recusou a proposta, ajoelhando em espirito, á generosa offerta de Palmyra.

Passou a nuvem. Requintaram os gozos e as despezas. Projectaram-se passeios ao estrangeiro. D. José de Noronha era grande parte e conselheiro n'estes prospectos de recrescente felicidade. Lembrou Palmyra a semana santa em Sevilha. Foram a Sevilha, detiveram-se por Hespanha dous mezes até presentirem uns longes de fastio. Voltaram a Lisboa no ante-gosto de planeadas excursões á Italia. Affonso de Teive entrou no seu escriptorio, em busca de cartas, e abriu primeiro uma das duas de Mafalda, antes que Palmyra o surprehendesse a lêl-as. Rezava assim a primeira:

«Meu primo. A nossa mãesinha está muito adoentada, e causa receios ao medico de Braga, que vem aqui todos os dias. Não me authorisou a chamar-te; mas eu, depois de consultar meu pae, resolvi participar-te isto, e pedir-te que venhas vêr esta santa. Ella não cessa de chorar e rogar a Deus por nós. Vem pedir-lhe que, ao sahir d'este desterro, continue a pedir no céo por ti, por mim, e por todos os infelizes. Tua prima, Mafalda

Era datada esta carta em 6 de Abril de 1852.

A outra, datada em 18 do mesmo mez, continha o seguinte:

«Meu primo. Acaba de expirar tua mãe. São cinco horas da manhã. Morreu-me nos braços. Dava tres horas o relogio, quando ella disse que havia de expirar quando raiasse o dia. Assim foi. Fallou de ti até á ultima, e ordenou-me que te mandasse uma carta, que ella escreveu no segundo dia de sua enfermidade. Admirei que não me respondesses ao menos á que eu te escrevi então. Deus sabe o que vai na tua vida. A santa lá está no céo: ella conseguirá o que fôr melhor para ti, em conformidade com os decretos do Altissimo. Aqui está meu pae a cuidar n'estes tristes preparativos para o enterro. Já dobram os sinos. Não me deixam escrever as lagrimas. Adeus, Affonso. Tua prima, Mafalda

Affonso, concluida a leitura d'esta segunda carta, bradou: «Meu Deus, meu Deus!» e cahiu de joelhos, escondendo a face nos estofos d'uma othomana.