Acudiu Palmyra aos gritos. Affonso ergueu-se, com as mãos no rosto, e, abafando os soluços, pôde dizer: «Morreu minha mãe!»

—Chora, no meu seio—disse ella commovida—chora, meu querido filho! Tens ainda este grande coração que te abriga na tua angustia.

Estas palavras alancearam mais a alma do meu amigo. Pareceram-lhe um sacrilegio, uma injuria á memoria da mulher, cuja vida fôra uma enchente de virtudes. «O coração da adultera a dar abrigo á dôr de um filho!» Era a consciencia que assim lhe gritava, não era ainda o tedio. Era, talvez, a repugnancia de se encostar ao seio da mulher por amor de quem deixára morrer sua mãe, esquecida, desprezada mesmo, lembrada algumas vezes como senhora mieira da casa, cujo herdeiro elle era.

Affonso pediu a Palmyra que o deixasse sosinho. Ferida em sua vaidade, considerando-se inutil em consolar o homem fraco, o homem debulhado em lagrimas, Palmyra cruzou os braços e abanou a cabeça. O atribulado moço não vira aquelle gesto; mas ouvira as palavras que o denunciavam:

—Não basta o amor da mulher amante para consolar as saudades de uma mãe. Eu tambem a tinha, quando te amava, e abriguei-me no teu coração. Que differença!...

Affonso irou-se; mas abafou a colera n'um gesto de impaciencia. Palmyra comprehendeu-o, retirou-se, lançando os olhos ás duas cartas, que estavam abertas. Encostou-se á mesa, e leu-as sem lhes pôr mão. Lidas, sorriu-se, remexeu ainda na lingua uma ironia infame, não ousou proferil-a, e sahiu. É que a mulher impura muitas vezes espumára o pus do cancro do orgulho, que a roia, na face immaculada de Mafalda, que o moço indiscreto algumas vezes, com fatuidade, relembrava como desgraçada na sua amoravel dedicação.

Assim que Palmyra sahiu, Affonso, a tremer calefrios, deslacrou a carta de sua mãe. Dizia assim:

«Meu filho. Muito ha que eu peço a Deus que me despene. Já me cançava a vida com tão aturado padecer, e nenhuma esperança de remedio.

«Agora espero que a misericordia do Senhor me attenda; e, se me diz verdade o coração, é chegada a hora de eu escrever umas linhas, que te serão mandadas quando eu tiver passado.

«Bem sabes tu, meu filho, que eu, cheia de terror do teu peccado, voltei para Deus a minha afflicção, e nenhuma palavra de censura te escrevi. O que eu podia fazer para livrar-te estava inutilmente feito. Era tardio tudo que fizesse depois. A infeliz creatura estava já comtigo. Ninguem sem ordem do céo poderia remil-a de sua perdição. Á minha presença veio o desgraçado marido de Theodora pedir-me que te movesse a influir no animo de sua mulher o recolher-se n'um mosteiro. Consultei primeiro a vontade divina, e depois a razão humana. As minhas orações, se podessem com Deus alguma cousa, lá iriam ter á tua alma em abalo de consciencia. O Senhor não quiz. As pessoas a quem pedi voto sobre escrever-te, segundo o pedido do homem de Theodora, todas me disseram que eu ia abaixar a minha dignidade n'um requerimento vão e desconforme á natureza da tua desgraça. Abaixar a minha dignidade não me custava nem humilhava; mas, sem esperança de te mover com as minhas pobres razões, antes quiz orar, e orar sempre a quem tudo podia.