«Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remetter-te n'um anno o rendimento de quatro, afóra o producto da quinta vendida, nada te disse respeito á causa dos teus desperdicios, promettedora de tua inevitavel pobreza.

«Conheci que eu, em tua vida, já nem sequer valia para amiga, muito menos devia esperar respeitos e amor á minha authoridade de mãe. Disse commigo que era irremediavel a tua desgraça, e esmoreci de todo em todo.

«Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Choramos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandissimas mortificações.

«Agora, meu filho sempre querido, é tempo de te abençoar, de te perdoar as dôres que me déste, e rogar-te que me vejas aos pés do Altissimo, se a sua misericordia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. Não te mortifique o pezar de me haver deixado morrer, sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do deshonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntario brado da consciencia, escuta-o, remedea-te, e foge de ti mesmo para te encontrares na justiça benigna do perdoador de crimes iguaes. Eu serei então em espirito comtigo para te ajudar a reformar o teu animo, e alentar em teus desfallecimentos.

«Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus t'a der, como tempo de merecer o céo. Aqui nasceu teu pae, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avós.

«Se alguma vez voltares aqui, e tua prima fôr viva, estima-a, em paga dos carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha, que ella me ha-de dar, quando eu expirar em seu seio. Aqui te lança sua derradeira benção a tua boa mãe, Eulalia

[XVII]

Encerrou-se Affonso por espaço de oito dias, inconsolavel aos afagos de Palmyra. Os amigos, seus socios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernaes logrativos das dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se á vista d'elles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em lucto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a soffrimentos communs e naturalissimos, taes como a morte de uma mãe. Palmyra ia ao salão receber os pezames, e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusillanimidade de Affonso. «Eu soffro muito—dizia ella a D. José de Noronha alquebrando o rosto em desconfortada pena—ao vêr que a minha solicitude consoladora nada póde com Affonso. O coração da mulher, que renunciou á satisfação do dever, e se immolou aos caprichos transitorios d'um homem, deve tambem renunciar o poderio de desviar d'uma sepultura os olhos d'elle. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu.» A taes razões, proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha:—Eu hei-de acreditar que Affonso deixou de amar apaixonadamente v. exc.ª, quando elle se confessar um monstro, e a honra fôr banida d'este mundo. Eu só comprehendo o esquecimento da honra, quando é preciso sacrifical-a a uma senhora como v. exc.ª Ainda bem que ha uma só, para se não abjurarem os deveres sociaes.—Ora, o estylo de Affonso—digamol-o de corrida—era muito mais lhano e correntio.

O filho de Eulalia, passado o primeiro mez de lucto, disse com suaves maneiras a Palmyra que o seu animo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo;—que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades;—que tencionava occupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmyra o acompanharia, revivendo a sua esquecida affeição aos livros;—que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem: finalmente, concluiu Affonso: «Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos.»

Palmyra sorriu, e disse: