—Bem sei... bem sei, Affonso.
—Que sabes tu? perguntou brandamente o moço—Diz o que sabes, minha amiga.
—Comprehendo a mola occulta do teu novo programma de vida... É o cansaço... Já me chamas tua amiga. A mulher, que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é cousa de pouca monta para quem lh'o dá. Falla-me claro: sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espirito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refólhos, Affonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As pêas, impostas mesmo pelo dever, são um infortunio muito meu conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Affonso?
—Não amo minha prima—respondeu serena e pacientemente o moço—Se amasse Mafalda, de certo não estaria ao lado de Palmyra. Estimo-a como irmão; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o ultimo alento de minha mãe o recebeu ella nos labios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referencias são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada n'este mundo?...
—Virtude!...—interrompeu Palmyra franzindo os labios no sorriso da ironia injuriosa—Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vicios!... Pouquissima generosidade é a tua Affonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua bocca o libello e a condemnação das minhas culpas?! Póde ser, póde ser, e eu, envelhecida pela experiencia de poucas semanas, não terei de que espantar-me.
—Offendem-me as tuas injustiças—redarguiu Affonso soffreando a impaciencia—Que direito te dou para tanto?
—Direito? queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?!
—Essa pergunta é aviltante, Palmyra!... Onde está a tua intelligencia, a tua critica, e propriamente a tua vaidade?—redarguiu Affonso de Teive—Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...
—A descer da tua consideração?—acudiu ella resabiada.
—Quem o duvída? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Affonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a offender-me.