—Isto é uma grande miseria, e uma grande infamia, snr. Affonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta affrontosa carta seja reformada.
Affonso lançou mão da carta, e recuou horrorisado da villania de Palmyra. Seccou-se-lhe a garganta e labios ao queimar d'um halito de colera que lhe calcinava o peito. Não pôde fallar. Sahiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Affonso o miseravel que vendera o sigillo de seu amo pelo ouro d'elle mesmo: fugira bem remunerado. No entanto Palmyra esbravejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Affonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja furia recrescia á proporção do desprezo com que os proprios criados lh'a escutavam.
Affonso de Teive sahiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Ahi sentiu orvalhos do céo esfriar-lhe o afôgo da febre. Olhou ao céo com mãos erguidas, e disse: «oh minha mãe!» Ao cahir da noite, voltou a casa, e viu no pateo o gig de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente d'elle, e disse-lhe:
—Fidalgo, não se afflija... Tenha animo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atraz da orelha.
O chulo da phrase offendeu-o, e a intenção mysteriosa ainda mais.
—Que queres dizer, animal?—perguntou Affonso.
O criado coçou-se fechando os olhos, e respondeu:
—Lá em cima está o snr. D. José de Noronha.
—Que tem isso? não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.
—Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o gig.