—Por que? Vem cá... Entra n'esta loja commigo... Falla claro!—dizia Affonso com suffocativa vehemencia—Que desconfias tu de D. José?
—Desconfio, fidalgo, que a snr.ª D. Palmyra não é fiel a v. exc.ª
—Mentes! mentes!—bradou Affonso—Prova-m'o, senão mato-te.
—Não ha-de matar, se Deus quizer, senhor morgado—volveu tranquillamente o Tranqueira, nome que merece lembrado.—Faz favor de tomar ar, e ouvir com socego. Estes negocios não vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.
—Não é tempo ao tempo, é já, já, immediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.
—Fidalgo, ahi vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe podesse pôr os dez mandamentos, foi cá mettido pelo lacaio da senhora, e era lá muito collaço d'ella. Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas. Antes de hontem, tirei-me dos meus cuidados, e fui-lhe na pista muito á socapa. Levei-o d'olho até á rua de Santa Barbora, e lá esgueirou-se-me. Querem vossês vêr que o diabo as arranja? disse eu cá c'os meus botões. Estará elle mettido em casa do D. José de Noronha? Meu dito meu feito! D'ahi a menos de tres credos sahia o malandro de casa do tal supplicante, e vinha anda que anda por alli fóra. Sahi-lhe eu d'uma travessa, e disse: «Tu d'onde vens, Antonio?» O patife engasgou-se, e nem p'ra traz nem p'ra diante. Tate! disse eu, aqui ha tratantada. Se elle fosse a cousa boa dizia-o. Puz-me a considerar no que havia de fazer. Eu se lhe digo que o vi sahir de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer? Embucho o que sei; tomo á minha conta espreitar a ama...—a ama! que a leve o diabo, que quem me paga é o fidalgo!—espreito e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negocio, e meu amo dá cabo d'este ladrão que o veio deshonrar a sua casa.
Affonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do craneo, como se lá se contorcesse e mordesse o cerebro um enxame de vespas.
O criado continuou:
—Antes de hontem á noite appareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atraz d'elle. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi v. exc.ª entrar tambem com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com elle outro amigo, acho que não tem duvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha ao tal menino, se fôr preciso.
Affonso poz a mão direita sobre o hombro do Tranqueira, e disse: