«Entendi que soára para mim a hora da expiação, annunciada pela visão do marido, cortado de angustias, superiores á minha. Faziam-se acceleradas transformações em meu animo; todas, porém, estranhas ao primeiro intento de matar. Lembrou-me fugir a occultas de minha casa, e esconder da infame e do mundo a explicação da minha fuga. Acudia-me logo outra idéa argumentando contra a miseria d'aquella. Lembrou-me propor a Theodora a separação, reservando a razão da proposta. Não sei quantos projectos disparatados ou irrisorios se atropellaram na minha pobre cabeça. «Serei eu um covarde?» perguntava eu logo á minha consciencia. Vinha então outra vez Eleuterio postar-se ante mim, e dizer á mulher que o fitava com desprezo: «Castigada te veja eu, e Deus me vingue.»
«Desligado da menor premeditação, assalteou-me de repente uma idéa, cujo alcance e desfecho eu não curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de Palmyra, encontradas no segredo da secretária, e dirigi-me á sala. Ao sahir da porta do meu quarto vi um vulto a sumir-se na extrema do corredor. Estuguei o passo, e o vulto parou. Era o meu criado Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia alli. «Estou de plantão» respondeu elle. Ainda agora, ou agora verdadeiramente, é que eu posso rir da resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido, e continuou: «Como dei fé que o patrão se deitou, não quiz deixar o negocio ao Deus dará: é o que foi.»
«Entrei na sala a passo mesurado, e quasi a subitas. Estava D. José ao lado de Palmyra na mesma othomana. D. Antonio folheava as Mulheres de Walter-Scott. Palmyra estremeceu, ao vêr-me assomar debaixo do reposteiro. D. José, embrutecido pela surpreza, não se moveu da posição denunciante da extrema familiaridade. Em minha presença, nunca elle se assentára a par de Palmyra no mesmo estôfo. Voltando a si da estupefacção de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse:
«—Não se incommode, snr. D. José de Noronha. Está bem. Os meus amigos em minha casa são os donos d'ella.
—Essas maneiras exquisitas, Affonso...—tartamudeou D. José, em quanto Palmyra, perplexa ainda, manifestava sua duvida no abrimento da bocca e esgazeado das faces.
«Não respondi á banal reflexão de Noronha. Voltei-me para D. Antonio, e disse-lhe:—O snr. Mascarenhas é de mais aqui. Se fôr propicia a occasião, elle sahirá a tempo—diz a carta do nosso amigo D. José. V. exc.ª devêra já ter sahido.
«Relanceei de revez um olhar a Palmyra. Vi-a sobresaltada e livida, agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do sophá. D. José erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. Antonio encarava-me com ares de pavor. Eu continuei:—A figura do snr. Mascarenhas n'este quadro é de mais. Queira sahir.
—Eu vou com D. Antonio—disse o Noronha.
«—Elle que o espere na rua—respondi, voltando levemente a cabeça sem o encarar.
«D. Antonio tomou o chapéo com presteza, abaixou a cabeça a Palmyra, e sahiu, cortejando-me.