«A mulher da estalagem de Barcellinhos voltou ao corpo de Theodora. Eil-a em pé, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos.

—Que significa isto?—exclamou ella—Acabemos esta situação sem grandes scenas! Que vem dizer-me o snr. Affonso?

«Confessarei que me senti pequeno diante d'este cynico interrogatorio! Que havia eu de responder á mulher, que rebatera com escarneo e arrogancia as moderadas aggressões do marido? Com que direitos ia eu alli, deshonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ella que estava perdida? E, se a infamia era commum de ambos, por que ambos eramos criminosos, que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta digna d'aquellas perguntas? Sómente assim posso agora dar-me contas de minha mudez de então.

«E ella, acorçoada pelo meu espantado silencio, proseguiu:—Abjurei dos deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braços, snr. Affonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de ter uma odalisca no seu palacio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que idolatrava a sua servidão, em quanto o snr. Affonso, enlevado nos ideaes amores d'uma prima...

«—Infame!—atalhei eu—Se tem de citar nomes de mulheres no seu arrazoado, procure-as, se as conhece, nas derradeiras paragens do vicio!... Não suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, não cahida na ultima abjecção, impõe respeito á amante de D. José de Noronha, hospedada em casa de Affonso de Teive.

—Bem!—exclamou ella—a amante de D. José de Noronha agradece a hospedagem, promette mesmo pagal-a da altura da sua independencia, e vai sahir, impondo silencio ao insultador.

«—Pois saia—tornei eu—mas leve comsigo o esterco com que sujou a minha casa!—e, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas.

«Palmyra, como se um aspide lhe mordesse um pé, deu um salto de fera enjaulada. D. José de Noronha tremia.

«E eu continuei, voltado contra elle:—A infamia é assim: tem esses desmaios de covardia, que desarmam o odio, e levariam á piedade, se o nojo não estivesse áquem da virtude da compaixão. Snr.ª D. Palmyra, aqui tem um paladino, que a não ha-de deixar corar sem desforço diante dos seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege ás suas ordens, se o seu pudor lhe não permitte entrar no carro do amante. Em quanto ao snr. D. José de Noronha, saia, e espere-a na rua.

Palmyra fugiu da sala em arremettidas de louca. D. José sahiu com o rosto abatido sobre o peito. E eu cahi extenuado sobre uma cadeira, cuidando morrer alli afogado de congestão de sangue no coração. D'ahi a momentos ouvi o gritar estridente de Palmyra, e um grande reboliço no pateo. Quiz debalde levantár-me. As pernas tremiam-me como se todos os nervos me estivessem golpeados.