«Abaterei agora a linguagem tragica do successo para te narrar o que se passava no pateo.

«O Tranqueira, posto de plantão, como elle dissera, não sahiu da sala de espera, ou do proximo corredor. Momentos antes da sahida de D. José, descera elle ao pateo. Quando o aturdido infame ia passando, sahiu Tranqueira do seu quarto com a lanterna do serviço das cavalhariças. Avisinhou-se de D. José, metteu-lhe a luz á cara, e disse-lhe: «O fidalgo, se me não engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito vermelho; e não será mau refrescar-lhe a cabeça. «Disse, depoz a lanterna, sobraçou-o pela cintura, fincou-lhe a mão esquerda no gasnête, levou-o de borco sobre a cisterna do deposito d'agua para os cavallos, e baldeou-o dentro, exclamando: «Ha-de ir fresco, ha-de ir fresco, seu alfacinha!» Os outros criados ainda quizeram valer-lhe; mas Tranqueira desfizera-se do jockey de D. José, rechaçando-o com um pontapé tangido por furia, digna de melhor adversario. O desgraçado cahira de cachapuz, e lográra logo romper com a cabeça á flôr d'agua; mas do pescoço abaixo ficou empoçado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, á mingoa de pega onde afincar as unhas. O instincto da vida vencera o da vergonha. D. José gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas noites, fôra para a cavalhariça arraçoar os cavallos. Os brados chegaram aos ouvidos de Palmyra, a tempo que o jockey se erguia do pontapé que o desintestinára, para, muito a custo, acudir ao amo. Desceu Palmyra anciada ao pateo, no momento em que o eleito de sua alma, na bocca da cisterna, sacudia as bicas d'agua, e tiritava estalejando as maxillas.

«Fulminou-a o ridiculo! Só o ridiculo podia sossobrar aquella alma de tempera, feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do portão para o escuro do pateo. Nem a commiseração lhe deu alentos para se aproximar do ensopado moço. Odiou-lhe talvez a covardia n'aquella hora. Odiou-se talvez a si propria. Não sei. Avisaram-me que ella estava prostrada, e sem sentidos, no lagêdo do pateo. Dei ordem ás criadas que a transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa, levando commigo o criado que me vira nascer, o unico homem diante de quem eu podia chorar.

[XIX]

«No dia seguinte, mandei de Cintra o criado a casa, informar-se dos successos decorridos... Quererias tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquella minha noite... Passei-a na ida para Cintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades moraes ia atrophiada. Volteavam em redor de minha intelligencia uns corpos, ora negros como o recesso dos abysmos, ora igneos como as fitas dos coriscos. Nem a memoria de minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções desconcertadas. Era a febre, a procella do sangue encapellada na cabeça. O criado teve o instincto de comprehender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando eu ia despenhar-me do cavallo, sem dar tento da vertigem.

Contava-me elle depois que eu, a intervallos longos, expedia gritos que lhe eriçavam os cabellos, e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavallo.

Aqui tens a minha noite: não tenho outras memorias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lagrimas, e chorei por muito tempo.

O criado partiu de Cintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto, que o escudeiro lhe dera, escripto por Palmyra. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ella, ao sahir de minha casa, levava comsigo. Deviam ser vestidos e joias. Palmyra, por tanto, havia sahido na manhã d'aquelle dia.

Ao entardecer, quando a tristeza cahia do céo, como um lucto de almas não já desditosas, mas ainda arraiadas do iris da esperança, confrangeram-se-me em dôr ineffavel as fibras do coração, dôr de saudade voracissima, saudade de Palmyra, desejo ardente de vêl-a não sei se para cahir-lhe de joelhos aos pés, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum allivio pedido a todas as potencias de minha imaginação, pedido a Deus, e ao amor de minha mãe, nenhum conforto experimentei. Era a desesperação, que pensa no suicidio. Deitei-me, confiado na esperança de cahir em lethargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incendio febril. Se algum instante o sopor me desfallecia, pulava-me o coração com tamanho impeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janella, em agonias de estrangulado. O maximo horror das minhas visões era ella, nos braços d'aquelle miseravel, áquella hora. As minimas circumstancias d'um espectaculo de devassidão, as mais secretas, e lubricas minudencias se me traçavam patentes a uma claridade infernal. A oração, esse divino desabafo de enormes afflicções, nem esse bem me valia um relampago de socego á alma. Começava orando, a anciedade recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a negação da Providencia, e um feroz deleite de blasphemar. Eu amava a mulher abysmada, a mulher prostituida! Eu, santo Deus, com instinctos tão nobres, educação tão religiosa, e respeitos tão profundos á dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epithetos usurpados á honra!... Eu que me infatuára perante o mundo de acorrentar á minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flôres, cuidando que a sociedade havia de respeital-a assim, e humilhar-se diante da minha affrontadora opulencia! Eu, verme esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbitrio, e renegal-o como ente inutil ao remedio da minha desgraça!...

«Mal me entreluziu a manhã, fiz apparelhar os cavallos, e voltei para Lisboa sem proposito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, em quanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lagrimas, e disse a medo: «Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que Deus e a Virgem Maria dará remedio.» Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldêa convidava-me; porém, entrando em espirito no interior da minha casa de Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos n'aquellas salas desertas: faltava-me minha mãe alli: o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me á lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna, a meiguice da virgem compadecida; porém o meu coração, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os balsamos d'um affecto purificador.