«O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo, attrahente da desordem da vida, quadrava mais á minha alma sedenta de não sei que filtros de lagrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resolução sacode o mais paralysado espirito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmyra, e abri as suas gavetas despejadas de todas as cousas d'algum valor. A minha razão logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a indole de uma mulher, que, em conflicto de tamanha vergonha, tivera animo para se andar por suas proprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas seductoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmyra. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondencia de minha mãe e de Mafalda. Queimei os restantes papeis, excepto as cartas de Theodora das Ursulinas. Por quê? Nem eu sei. Queria aquellas memorias da creança que então morrera...
—«Chamei os criados, e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira, e, n'esse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavallos, e mobilia. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residencia obscura n'um hotel inglez em Buenos-Ayres.
«Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se d'elles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmyra pôde vencer o orgulho escarnecido.
«No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo á minha. Eil-a aqui: «Ambos te queremos do coração, Affonso. Meu pae não diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua mãe dizia em ancias: «perdi meu filho!» o meu bom pae ajuntava sempre: «elle virá, minha irmã, que a sua indole é boa.» Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e elle disse-me: «escreve-lhe tu, com a benção de teu pae; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ella o ame; é o mais que posso dar-lhe.» Estas palavras escrevo-t'as por sua ordem, e desconfio que são inuteis para a tua felicidade. Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Affonso, nos dás grande satisfação.
«Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pezar de não ter vindo assistir-lhe á morte, tranquillise-te a certeza de que ella te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ella era. Eu fui lêr á beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me de ao pé d'ella tão desopprimida e satisfeita que tomei por instincto do céo a minha alegria. Póde ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do allivio que eu senti então.
«Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negocios da tua casa. Meu pae faz o que póde, e dirige o teu procurador; mas receia de não zelar os teus interesses como queria por falta de saude, e pela distancia em que vivemos de Ruivães.
«Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz, e lembra-te com amizade da tua Mafalda.»
«Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sahir para Pariz, no proposito de assentar alli a minha residencia. Expressões affectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessarias á formalidade de relações entre primos que se estimam. É que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o vê rejeitado d'outra, embora villissima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia, coberto de infamia por Palmyra, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobre tudo, meu amigo, bem que eu quizesse, não poderia amal-a então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmyra. Sabem os experimentados, poderás tu sabel-o, que é uma excepção d'almas futeis a passagem rapida d'uma affeição a outra, quando nos pesa o opprobrio d'uma perfidia. O coração está lanhado, a fronte não ousa erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob um peso de vilipendio, que cuidamos lêr nos olhares affrontadores de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos taes a piedade, senão injuria?!
«Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio, avisou-me elle de que havia comprador prompto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim: «Tua prima está enferma, por isso não te escreve; e eu tambem adoentado e tristonho mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com Deus, Affonso. Póde ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te vêr ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi a final o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguaes. Quereres tu o privilegio que o marido não teve, seria um absurdo do teu orgulho. Theodora está em Braga promovendo o divorcio a fim de levantar-se com o seu patrimonio. O Eleuterio, por intervenção de um meu compadre, quiz que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas cousas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a gôta. Sou o depositario do borrador das cartas que ella te escrevia, seductoras em verdade, e dignas de irem á estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?! Estou em dizer que anda aqui muito amor de diccionario; e os successos posteriores levam-me a crêr que era ainda peor o amor da creatura. Aqui estou eu a fallar comtigo á laia de rapaz! e o caso é que a dôr do calcanhar esquerdo espalhou.
«O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leiroz e Gestal. Para te não dizer cousas tristes, e evitar que torne a dôr do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe, e teu amigo devéras, que, exhaurido o teu patrimonio, tens a minha casa. Se eu morrer—e ainda bem!—antes d'esse dia (dia, talvez, inevitavel!) deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-nos de Paris—Teu tio F. de Teive.»