«Alegrou-me a nova da ausencia de Palmyra de Lisboa. O dragão do ciume desencravou-me as garras do peito. Que estupida alegria! A suspensão da perfidia que importava ao desaggravo do meu orgulho? Quão lastimaveis e ridiculos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame da sã moral resiste ao cancro do coração. Até o regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de animo, scena de comedia que faz rir o mundo.

«E eu, ancioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu ia procurar em França?

—O methodo mais facil de gastar os trinta mil cruzados—respondi eu.

—Não me lembravam os trinta mil cruzados: ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvação.

—E encontraste-o em França?

—Encontrei.

—Vejamos.

[XX]

Ao oitavo dia de residencia em Paris, Affonso de Teive não sabia que fazer da sua pesada inercia. Fechado no quarto de um hotel, ouvia os estrondos da Babylonia, e suspirava pelos silencios da sua aldêa. Apresentára as cartas de cavalheiros de Lisboa na embaixada portugueza, recebera a visita dos compatriotas distinctos em Paris, e convivera nos primeiros dias em bailes, theatros, e jantares. Saciou-se prestes aquella contrafeita sofreguidão de vida, e logo uma subita e glacial atonia lhe ennegreceu os prazeres, almejados de longe, como iniciação para outros, que inteiramente lhe obliterassem da memoria as dôres passadas.

E, no termo de oito dias, uma consolação unica lhe restava: era o ante-gosto de voltar á casa deserta de Ruivães, e esperar alli ao lado do jazigo de seus paes o breve termo de sua irremediavel tristeza.