O noticiario! Ninguem, que me conste, aprofundou ainda o que esta palavra encerra em si de humanitario! S. Paulo, todos os evangelistas, as catecheses derramadas de angulo a angulo da terra, em materia de caridade, não se avantajaram á missão do noticiario.

Se eu não tivesse de convicção minha que as acções meritorias dos gabos do mundo, quando disparam em proveito geral, não podem desmerecer no juizo divino, havia de cuidar que a mão, aberta em fontes caudaes de ouro vertido, como balsamo, sobre as chagas sociaes, bateria ás portas da região pavorosa, onde o peccado da soberba, alliado da vaidade, soffre a condemnação prescripta nos codigos de todas as religiões. A vaidade levanta o palacio em que se acolhem os desamparados d'um tecto de palha e d'uma enxerga de folha. A vaidade doura-lhe os frontaes do asylo, atapéta-lhe os porticos, ventila-lhe por janellas de luxuosa alvenaria os dormitorios, tudo lhe magnifica e opulenta em pedra e estofo: tudo lhe dá em desconto das dôres da velhice alanceada de enfermidades; tudo, excepto o pão da alma, a doutrina da paciencia, a communhão santissima, que refaz o espirito quando o corpo desfallece. Tudo lhe dá, excepto um padre, um interprete do Christo, que dê vida de amor ao seio traspassado, e palavra de pae aos labios roixos d'aquelle crucificado, que lá do fundo do dormitorio contempla inertemente o deslaçar-se fibra a fibra d'aquelles corpos, alli postos como prêsa disputada, por mais alguns dias, á aniquilação...

—E não é isto o maximo quilate da beneficencia?

Que hei-de eu responder ao leitor illustrado, que me interrompe, assim de golpe, um discurso que lhe havia de mortificar o folego, pelo menos?!

Peço-lhe que me deixe contar-lhe em cincoenta linhas, pouco mais ou menos, como eu vi, n'uma terra d'estes reinos, crear-se, e prosperar um asylo de pobres.

D. Elvira era uma dama casada, que não tinha por seu marido aquelle amor que dá ao peito da boa esposa arnez de aço contra as frechas de um cupido estranho. O marido, nimiamente confiado em seus direitos, descuidou-se. Aqui está um mal enorme d'onde vamos vêr brotar uma enchente de beneficios á humanidade. O paradoxo demonstra-se d'este theor:

D. Elvira, desconfiada dos seus servos e servas, tomou como medianeira dos seus illicitos amores, uma octogenaria, que tinha quatro irmãos velhos, um marido velho, duas cunhadas velhas, e cinco sobrinhos velhos, todos mais ou menos glutões que ella, e alguns muito mais ociosos e patifes. D. Elvira occorreu por algum tempo ás precisões de toda esta tribu de immoraes, em obsequio á interventora indispensavel. Uma vez, D. Elvira orçou as despezas annuaes d'esta peccaminosa obrigação, e pasmou do seu desperdicio. As avultadas esmolas, de mais a mais, eram secretas, porque o descobrirem-se daria rasto á suspeita. Na terra havia dous jornaes, e nenhum lhe tinha ainda chamado virtuosa, ao passo que a sua presumida rival D. Benedicta por mais d'uma vez tinha sido abençoada pelas gazetas; em nome do genero humano, em virtude de ter mandado aos presos os sobejos d'um jantar dado no dia natalicio do marido, a quem ella estimava tanto como a mim, quando souber que eu duvidei grandemente da virtude que os jornaes lhe deram. D. Elvira despeitada, um dia que o marido entrára d'ouvir o tocante sermão de um missionario ácerca de caridade, commoveu-se, e prégou tambem sobre a mesma virtude theologal. O marido maravilhou-se, enterneceu-se, e ouviu com lagrimas a proposta da fundação d'um abrigo de velhos e velhas desamparados, com as economias da esposa. Discutido o programma, escolhido o edificio, orçadas as obras de pedra e madeira, chegou a noticia ás gazetas. No dia seguinte, ambos os jornaes da terra retiraram os seus artigos de fundo para darem a circumstanciada noticia do caritativo instituto da virtuosissima senhora D. Elvira. Ambos os periodicos, á compita, lhe deram estes regalados e maviosos nomes: Pomba de beneficencia; anjo da caridade; sacerdotisa da lei de Jesus; mãe dos pobres; balsamo dos afflictos; esteio da decrepidez; lampada do Evangelho!

Lampada não gostou ella que lhe chamassem, porque já a sua rival D. Benedicta costumava, não sabemos bem porque, chamar-lhe lampadario; seria talvez porque D. Elvira usava muito de vidrilhos na cabeça, os quaes brilhavam e scintillavam á maneira de lustre. Seria isso; mas D. Elvira aceitou os outros nomes com muita satisfação, e com grande faina, em menos de tres semanas, recolheu os doze velhos que estavam no segredo da sua caridade. O asylo tinha capacidade para vinte e quatro. Oito dias depois o numero estava preenchido.

E vai depois D. Benedicta, ciosa da popularidade que a sua rival vingára, combina-se com o marido, e delinea um outro asylo com capacidade para quarenta e oito velhos. Os jornaes que tinham gasto com a outra senhora os adjectivos, substantivos, e pronomes, empregaram em honra de D. Benedicta as interjeições. O artigo d'um começava por Ah! o artigo do outro jornal por Oh! Fundou-se o asylo de D. Benedicta. Como na terra não havia tanto velho, alguns marmanjolas de trinta annos, inimigos do trabalho, ou encanecidos nas cadêas, apresentaram certidão de idade de sessenta, e esconderam a sua bargantisse sob as azas caritativas de D. Benedicta, a quem as gazetas chamavam a santa!

Aconteceu que passados quatro annos D. Elvira mudasse de residencia para outro mundo, onde os necrologistas disseram que ella ia receber a palma do triumpho. A caridade do viuvo esfriou, e veio a um accordo com o marido da santa. Transformaram-se n'um os dous asylos, já abundantes de esmolas d'outras senhoras virtuosas, e assim chegou este humanissimo estabelecimento a um grau de prosperidade que não deixa nada a desejar, segundo asseveram as gazetas da terra.