Eu tinha visto Affonso de Teive, em Coimbra, n'aquella primeira época, matriculado no curso philosophico. Pertencia ao circulo de litteratos, creadores da Revista Academica e Trovador; e tambem, nas horas furtadas ás palestras litterarias—quasi sempre controversias ácerca da primazia de Lamartine ou Victor Hugo—pertencia á grande tribu dos trossistas, gente arruadora e desatinada, para quem as saudosas tradições do famigerado José Lobo não tinham ainda esquecido. Esta dualidade em Affonso de Teive era uma distincção, que o tornava menos agradavel aos litteratos circumspectos, e menos estimavel tambem aos camaradas das assuadas e motins nocturnos. Affonso era poeta n'um genero galhofeiro, quando queria; e dedilhava o alaude das elegias, se lhe dava para lastimar-se, ou carpir saudades imaginarias de mulheres, suas amadas, fugidas d'este lamacento globo para os plainos balsamicos do céo. É o que me parecera a mim. Tinha dias de escrever jaculatorias em verso, que dariam fama a um eremita da Thebaida; n'outros dias, satyrisava a religião, os dogmas, e a propria divindade com os apódos e dialectica d'um desbragado discipulo de Voltaire. E o mais para assombro é que elle parecia sentir no coração o ascetismo de hoje, e a impiedade de ámanhã: agora, iria de poz o pallio da extrema-uncção murmurando as preces do povo, que não se peja de orar em publico e alta voz; e logo bem poderia succeder que, encontrando o mesmo prestito, não levasse a mão á fronte para tirar o gôrro. A um homem assim dotado de tão contradictorios espiritos, facil seria agourar-lhe grandissimos dissabores no trajecto da existencia: para os semelhantes d'aquelle funesto modêlo, as estradas communs da humanidade não conduzem a paragem nenhuma certa; nem o coração nem o espirito aceitam leis immutaveis; a moral é um facto, cujas condições deve e póde infringir aquelle a quem ellas não aproveitam; em summa, Affonso de Teive dava a prever um desgraçado, a menos que em sua indole não sobreviesse uma das raras revoluções, que inopinadamente transfiguram o homem moral, se não é o abalo da mesma desgraça que opera esses prodigiosos reviramentos.

Tal conheci em 1845 em Coimbra o meu hospedeiro minhoto de 1863.

Encontrei-o, depois, no Porto em 1848.

Achei-lhe a mudança que influem os salões nos espiritos, para assim dizer, incultos da cortezania e graciosidade de que em geral carecem os mancebos sahidos dos cursos escolares.

Affonso de Teive tinha fama de rico. Escutei o que diziam os almotacés dos haveres de cada sujeito admittido á sociedade portuense—pessoas, que á vista do zelo com que indagam os minimos valores do sujeito, parecem habilitar-se para mordomisarem os bens de quem chega—e ouvi que Affonso era natural do Minho, filho unico já orphão de pae, e senhor de sua casa, estimada em cento e cincoenta mil cruzados. Em quanto a costumes, dizia-se que o rapaz era dado ao namôro, borboleteava por diversos camarotes do theatro de S. João, assoprava zelos e raivas entre umas tantas senhoras nos bailes, e pouco mais digno de censura. De escandalos, não rosnava cousa importante a opinião publica. A mocidade do Porto, por despeito, ou por outro qualquer sentimento igualmente natural que desculpavel, é que, no intento de deprimir o Tenorio do Minho, divulgava, como quem diz muito secretamente a cousa, que varios maridos andavam enganados com Affonso de Teive; porém, como acontecia que os maridos indigitados se satyrisavam uns aos outros, observando e censurando cada um a demasiada confiança do outro, é hoje cousa difficilima de tirar a limpo se algum dos maridos se enganava, ou se todos se enganavam, ou se não se enganava nenhum. Se o leitor considera que seria curioso esquadrinhar o caso, eu de mim entendo que a humanidade não ganha com isso nada, e por tanto n'este, e em muitos outros artigos advenientes de moral duvidosa, ponho, e porei ponto, quando não seja preciso á contextura d'este romance desvelar factos censuraveis.

Affonso sahiu do Porto n'aquelle mesmo anno de 1848, com destino a França, segundo uns, e á Turquia, segundo outros. Os d'esta opinião diziam que elle, convencido de que tinha uma cara oriental, ia para terra onde podesse vestir-se de modo que o rosto lhe sahisse melhor do que entre uma gravata de laçarias portentosas e um canudo de felpo lustroso. E certo era que o typo physionomico do cavalheiro minhoto era sobremaneira arabe, por causa do nariz fino, dos olhos coruscantes, da tez azeitonada, do espesso bigode negro, e do comprimento e magresa do rosto. Se ajuntarmos a este composto de venturosas e aventureiras feições o estar elle sempre fumegando por cachimbo turco, dir-se-ha que os turcos é que propriamente, lá na sua terra, o andavam imitando a elle.

Se foi á Turquia, é de presumir que rivalidades com o sultão, ou—peor ainda—tentativas de invasão ao harem o obrigaram a voltar a Portugal, onde os direitos de cada homem e de cada mulher estão muito mais razoavelmente definidos e garantidos. A verdade é que eu, no fim do anno seguinte, encontrei Affonso de Teive em Lisboa, cavalgando um donoso alazão ao lado de uma amazona, cujo mursello fazia admiraveis gentilezas de picaria. Deu-se este encontro no Campo Grande, n'uma tarde de corridas equestres. Alguem cuidaria que a soberba cavalleira, d'uma formosura invejavel na Circassia, devia de ser a esposa raptada d'algum gran-visir; pessoas, porém, melhor informadas, disseram-me que a esvelta dama era portugueza de lei, portugueza do Minho, dos arrabaldes de Braga, onde os reaes sensualistas do Islam mandariam subornar as suas sultanas, se soubessem que n'estas regiões as mulheres, que, por acaso, sahem feias das mãos da natureza, aprendem a ser bonitas com as flôres. Releve-se este orientalismo a quem está tratando de cousas asiaticas como a cara de Affonso, e o garbo peregrino de Palmyra.

Palmyra me disseram que se chamava a gentil creatura.

Posto que eu, em Coimbra e no Porto, me houvesse relacionado algum tanto intimamente com Affonso de Teive, ainda assim, azado o ensejo de perguntar-lhe promenores d'aquella conquista—conquista se diz vulgarmente do que devêra mais de siso chamar-se, fartas vezes, derrota—nada indaguei, visto que elle, com insolito resguardo, se absteve de me dar ansa a esgaravatar-lhe cousas particulares da vida—particulares, dissemos, para sustentar á palavra a fama que o diccionario faz correr; sendo aliás de toda a evidencia que não ha ahi cousa mais nua, mais publica e assoalhada que tudo quanto se chamam particularidades da vida privada, mormente quando o divulgarem-se torna e redunda em philaucia d'uns tolos celebres, que seriam invejaveis, se as proprias corôas, com que cingem as frontes, lhes não dessem muito que doer com os espinhos escondidos—quero dizer em estylo espalmado: se as proprias mulheres, que lhes dão os triumphos, não fossem os instrumentos com que a justiça infinita inflige aos vangloriosos o castigo infernal do seu orgulho.

Foi-me preciso escutar os boatos correntes á conta da mulher que Affonso de Teive me não apresentou. Observei que ninguem a julgava honestamente, e assim mesmo ninguem lhe dava um epitheto indecoroso. A civilisação beneficia assim as mulheres que não podem adjectivar-se publicamente virtuosas, nem mesmo quando visitam com a esmola a mansarda do doente desvalido. N'esta especialidade, o jornalismo comporta-se louvavelmente. Quando um localista pregoa o donativo de alguns lençoes que opulenta matrona, por variar prazeres d'alma, já cançada dos transitorios gozos d'outra especie, mandou a um asylo de lazaros, e diz que a humanidade abençôa a virtuosa senhora, não nos havemos de entalar com este decreto de virtude: a humanidade manda que o engulamos. O localista tem razão: é bom que a palavra virtude sirva de piedoso visco á liberalidade de pessoas, que desejam alguma vez, ao lerem-se virtuosas, experimentar a satisfação de se verem ir á posteridade na secção do noticiario.