Desfallece-lhe a sacrilega coragem de negar a sua mãe o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz abriga-o a desviar os olhos d'um tumulo para enxergar não longe a indigencia em Paris, a indigencia relativa com as galas do passado.

Estas agonias são as supremas de sua vida. Palmyra, a memoria da mulher fatal, nem por sonhos o perturba. Apparelham-se-lhe affrontamentos maiores. A vergonha do pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraiçoado. Pensa, sonha, contorce-se, alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a scismar na rehabilitação pelo ouro, na reparação do seu capital; porém, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora idéa!...

Escreve ao tio Fernão d'este theor:

«Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Elle refugiou-se aos quarenta annos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco annos, a honra perdida, a rehabilitação impossivel, aptidão para nada, o espirito derrancado no gozo de infames delicias: e, para sustentar esta vida corroida da lepra, resta-me a quinta de Ruivães. Eu sei que a fome não iria lá bater-me ás portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia n'um d'estes comoros de terra, onde os sepultados não tem nome. Minha mãe pediu-me que não vendesse a casa onde está o jazigo de meus avós. Os meus avós são os de meu tio Fernão de Teive. Aqui venho eu offerecer-lhe a minha quinta. Compre-m'a, meu tio, que a vontade de minha mãe está cumprida. Lá fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante d'aquellas lapides sagradas. Compre-m'a, senão eu, de mãos postas, pedirei a minha mãe que perdoe ao reprobo, que lhe vendeu os ossos, na vespera do dia da fome. Seu sobrinho Affonso

Fernão, lida a carta, em presença de Mafalda, abriu os braços á filha, que parecia finar-se n'elles. Das ancias e lagrimas sahiu ella com uns gritos afflictissimos, pedindo ao pae que valesse a Affonso, sem demora. Fernão, carecedor de ser consolado da desgraça do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroço da filha, promettendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade d'ella, que era tambem um dever d'elle a cumprir já com o parente, já com a memoria de sua irmã. Foi instantaneo o contentamento de Mafalda.

—E depois?—exclamava ella—E depois, meu pae, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudirá?

—Nós—respondeu de alegre aspeito o pae.

—Nós?—tornou ella entre alegre e amargurada—mas não vê o que elle diz?...

—Que diz elle, creança, que diz elle? Lê-me tu o que elle diz...

—Olhe, meu pae... Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia num d'estes comoros de terra onde os sepultados não tem nome. O pae entende isto muito bem...