—Entendo; mas não me assusto. A gente ha-de pensar: primeiro, o essencial, é mandar-lhe o dinheiro, e dizer-lhe que os tumulos de Ruivães, e as casas, e as terras são d'elle, como até aqui.
—E aceitará?—replicou Mafalda—Tomará elle a dadiva como esmola?
—Ó mulher!—retorquiu o velho—tu estás uma argumentadora dos meus peccados!... E o mais é que lembras com juizo essa especie!... O doudo é capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que é o valor da cousa. Vou ámanhã ao Porto. O dinheiro está ahi. Fico sendo o proprietario de tres quintas de Affonso. Cá te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no proposito de morrer solteira, dá-lh'as, se elle viver. Que mais quer a minha filha?
Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mãos. Ergueu-a o pae com muita ternura, enxugou-lhe as lagrimas no lenço em que embebia as d'elle, e disse, sofreando os soluços:
—Que esperas tu d'este rapaz, Mafalda? Quando virá Deus em auxilio d'esse tão fraco e desventurado coração? Filha... estima-o; mas não o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro annos os teus tão desconsolados e estranhos ás menores alegrias de tua idade!... E tu não cahes em ti, filha, não vês que Affonso está cada vez mais longe de te avaliar!?
—Sei, meu pae—respondeu Mafalda com serenidade.
—E então?... sabes, e não te vences...
—Não posso vencer-me, Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim...—As lagrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ancioso de ar.
—Pois bem, meu amor—tornou o pae, duplicando as meiguices—Eu absolvo a tua fraqueza, já que o Altissimo te não fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Ha milagres mais assombrosos. Póde ser que elle ainda venha para ti com o coração purificado, e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido será então. Que te diz lá no intimo a voz do teu anjo? Serei propheta, minha filha, serei?
Mafalda sorriu-se, e murmurou: