«Aspei todos os vestigios que podessem recordar Theodora. Entre os papeis do meu tio Fernão, n'uma gaveta secreta, encontrei o copiador das cartas d'ella. Minha mulher surprehendeu-me n'este descobrimento, viu e comprehendeu, sorriu-se, e disse: «Meu pae nunca me deixou vêr isto, bem que eu soubesse da existencia d'este livro. Triste sorte a d'esta senhora! Mal diria a mãe que tão virtuosamente a educou!» Unicas palavras que Mafalda proferiu com referencia a Palmyra!
«Aqui tens a minha vida, a vida dos dous homens, que na curta passagem de quarenta annos, tocaram as duas extremas do infortunio pela deshonra, e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora está alli n'aquelle ermo, glorificando a herança, que minha mãe lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o céo á padecente que subiu, e á redemptora que baixou no raio da gloria d'ella. A mulher de perdição não sei que destino teve...»
—Pois ignoras o destino de Palmyra?—interrompi eu, desconsolado como todo o romancista, que desadora invenções.
—Como queres tu que eu saiba o destino de Palmyra?!—Replicou Affonso de Teive.—Quem ha-de vir contar-me a Ruivães os desastres que lá vão no seio apodrentado da sociedade!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaçaes a deves encontrar, lança a tua espionagem, diz, alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escandalos, e não faltará quem te illumine e esclareça. Do viver da mulher virtuosa é que baldamente procurarás noticias: dá-se a virtude n'uma obscuridade, que chega a incommodar a attenção dos que observam como cousa curiosa de vêr-se.
—Pois não me despeço—redargui—de me ir por ahi fóra no encalço de Palmyra, e mal d'ella, se a não topo, que morrerá sem lêr a sua biographia, desastre commum, mas immerecido, das mulheres da sua especie. Quantos romances, e dramas, e cantatas ahi pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspasias e Phrineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catullos e Ovidios eternisaram Lesbias e Corinnas. Menos affrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautiers, e fazem que as familias honestas chorem por ellas nas paginas dos livros e nas tabuas dos palcos. Palmyra ha-de ter um livro, ou eu não escrevo mais nenhum depois do teu... Dá-me agora noticias do Tranqueira. Que é feito do Tranqueira?
—Está lá em casa a esta hora com um pequeno a cavallo em cada hombro, e outro enganchado na barriga. Tranqueira não é meu criado. Lá em casa os meus filhos conhecem-no pelo amigo velho. Tem o seu quarto no interior dos melhores aposentos. Chama-se elle a si feitor; mas o que elle feitorisa é o seu rheumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal, e negoceia em lenha e madeiras. Quando recebe algumas libras, vai até Braga visitar uns parentes pobres, dá-lhe metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estomago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que elle quer ser sempre ouvido, ou no grangeio das terras, de que elle não percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma elle estirar os braços tremulos, e dizer: «O que tu precisas é um banho de cisterna.» Imagina o Tranqueira que a sua especial vocação é dar banhos de cisterna.
—E o padre Joaquim de S. Miguel morreu?
—Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vividouro. Não o vistes lá em casa por que foi para o Alto-Minho consoar com a familia, tributo que elle pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o não recebamos com grande alvoroço de alegria. É o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os oculos de modo que as lições cahem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez annos de vida n'aquelle ensino. Que mais queres saber?
—Se poderei dormir duas horas em tua casa, respondi eu.
—Vamos partir.