—E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão elles em mim a falta do padre? Previne-me.

Partimos.

A distancia de um oitavo de legua do paraiso restaurado do meu amigo, enxergamos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dous ao collo, e outros dous pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam n'uma grilharia barbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros:

—Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternaes, disse eu—Seriam excellentes anjos aquelles pequerruchos, se tivessem larynges mais accommodadas ao apparelho auditivo do genero humano!

—São os meus filhos—exclamou Affonso—É minha mulher! Alli tenho tudo, o capital, o juro, e a usura da felicidade que desbaratei. Alli me esperou minha mãe dous annos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o céo fôra o mais alto ponto onde ella voára para vêr de lá a minha perdição. Alli voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flôres que eram d'ella; das primeiras adornei os cabellos de minha mulher; das que me deu a primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorecencia, vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe offerece como a intercessora com o Altissimo. Oh meu amigo! de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva!...............


Aproximamo-nos do formoso grupo. Apeei; fui cortejar a mulher do amor de salvação, e disse-lhe commovido, e creio mesmo que lagrimoso:

—Ao cabo de dez annos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de v. exc.ª com o funesto contagio da sua má estrella! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivencia do seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Affonso de Teive cerrou olhos n'esta infinda noite de Dezembro!...

—Tambem eu não!—atalhou Affonso sorrindo—tambem eu não!

—Não importa, minha senhora—tornei eu—Seu marido velava; mas que saborosa vigilia! Contou-me suas desgraças para que eu podesse cabalmente ajuizar da felicidade perenne, que v. exc.ª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lagrimas, e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, n'este mundo, era uma usurpação feita ao céo!... Agora sei que ha sobre a terra um homem feliz, feliz ha dez annos, feliz para uma longa existencia. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!