José Francisco tartamudeou esta resposta:
—Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. Lá foi o meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim. Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar.
Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres corações, que por ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a consciencia da sua dignidade, e—o que mais é para assombro—a consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a natural grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. Fulminava-o a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que faria lembrar o da magica da Colchida, se elle não fosse pôrco, antes de ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submissão amor, que os romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.
Antonio José Guimarães, avesso á reconciliação de Silvina com o morgado, e desejoso de a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em desamual-os, dando explicações a favor d'um e d'outro, de modo que ambos já as escutavam silenciosos. José Francisco acompanhou Silvina e Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e authorisou o linheiro a dizer de sua parte á menina que por causa d'elle não se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente sustar a começada execução sobre Pedro de Mello; presenteou com alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro de Mello as satisfações que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao arbitrio d'este as condições da escriptura nupcial.
E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas.
XXIII.
Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que Silvina se exhibia.
Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima, conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos, vesados áquella elegancia de feiras.
Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires: