—Lá está ella... Não passemos d'aqui.

—E que quer dizer não passarmos d'aqui?—acudiu o da Maya, accendendo o charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro—Queres tu, amigo Jorge, fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella mulher?!

—Julgue-me ella como quizer...—replicou elle—concedo que seja tolice isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina. O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle, que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres: eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.

Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o morgado de Santa Eufemia.

—Então quem namora agora a menina?—disse o da Maya—O meu amigo de certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das gaivotas, como Catão d'Utica.

—Que é?!—disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse algum chasco á sua ignorancia.

—Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem?

—Nada, não conheço—replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.

—Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem—retorquiu o da Maya.

Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens, que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz: